No regresso das gloriosas noites europeias ao Estádio da Luz até foi o Liverpool quem entrou mais forte, fruto talvez de uma maior experiência a nível internacional. Chegaram ao golo bem cedo num dos famosos livres
à Camacho: com a bola descaída para o lado esquerdo, Steven Gerrard executa na perfeição um passe rasteiro ligeiramente atrasado para que Daniel Agger pudesse aparecer e bater facilmente Júlio César e uma defesa demasiado preocupada em defender à zona e perto da baliza. O Liverpool adiantava-se logo nos primeiros minutos do jogo, num lance relativamente parecido ao que lhes deu a passagem à final da Champions League da época 2006/2007, como podem ver
aqui, inclusivamente com os mesmos protagonistas (Gerrard e Agger).

O Benfica não entrou a medo no jogo, mas sentiu claras dificuldades para pegar e dominar a partida. Maxi Pereira foi o espelho dessas dificuldades ao não conseguir parar nenhum dos adversários que lhe apareciam pelo caminho (Babel, Gerrard ou mesmo Torres). Felizmente, à meia-hora de jogo, deu-se o lance que decidiu a partida, quem sabe se a eliminatória. Após falta dura de Luisão sobre Torres, o capitão benfiquista foi amarelado, mas, não contente com a situação, Ryan Babel foi tirar satisfações com o brasileiro, empurrando-o na face por duas vezes. O árbitro sueco Eriksson não teve dúvidas e expulsou o holandês, numa decisão que pode parecer polémica mas acaba por ser justa.
O ambiente a partir daqui foi outro. O Liverpool, apesar de ser um bom conjunto, não tem a mesma capacidade de construir jogo que tinha, por exemplo, o Marselha, e a partir dos trinta minutos só deu Benfica até final, salvo dois lances esporádicos de Torres. No primeiro tempo, Cardozo mostrou-se demasiado perdulário, falhando um bom par de ocasiões. Di Maria também teve a sua hipótese para marcar, num remate alto de pé esquerdo, que quase beijava a trave da baliza de Reina. Os adeptos puxavam pelo Benfica, os do Liverpool, calados na maior parte do tempo, foram a grande desilusão da noite, na minha opinião. O intervalo acabou por chegar com a vantagem inglesa mas com o Benfica claramente por cima.

No segundo tempo o Benfica voltou a entrar "à Benfica". Forte, dominador, encostou o Liverpool no seu meio-campo defensivo, mas voltou a falhar golos feitos. Cardozo foi a face do desperdício, ele que teve um jogo complicado fruto da ausência de Saviola. Arrisco dizer que Cardozo sentiu mais a falta de Saviola que a equipa do Benfica, na medida em que Aimar, substituto do seu amigo argentino, esteve em bom plano, mas não deu um apoio tão efectivo, na frente, a Tacuara. Surpreendentemente foi em lances aéreos que o Benfica criou mais problemas à baliza de Reina, sempre com Cardozo a responder de cabeça a cruzamentos de Di Maria ou Coentrão. Ainda não tinha chegado o momento do jogo, mas estava para breve...
Boa jogada de entendimentos entre Carlos "Passa a Bola!" Martins e o seu grande amigo Cardozo, que roda sobre dois defesas do 'Pool e é rasteirado, ganhando a falta. No livre, o paraguaio envia um míssil ao poste de Reina, a bola volta para trás, ressalta em alguém e sobra para Aimar, que em boa posição para finalizar é derrubado por Ínsua. O árbitro assinalou
penalty mas ficou por mostrar o cartão amarelo ao argentino, que seria o segundo. Cardozo assumiu a responsabilidade. Não resisti. Sempre apoiei Cardozo na marcação de grandes penalidades, sempre defendi que deveria ser ele (o
Éter que o diga), mas não aguentei, virei costas ao Estádio. Fiquei a ver a reacção dos adeptos e eis que para meu espanto não era o único de costas, contei perto de uma dezena de pessoas que não quiseram ver. A reacção dos adeptos foi linda.

Com o Benfica por cima, o Liverpool teve uma ocasião soberana para sentenciar o jogo, num lance onde David Luiz não aborda Kuyt e Luisão se esquece completamente de Torres nas suas costas. O avançado espanhol deslumbra-se com a oportunidade soberana e no um-para-um com Júlio César atira ao lado. Passou o maior momento de perigo dos ingleses no segundo tempo. O Benfica carregava e num lance individual de Di Maria, o camisola vinte ganha a linha de fundo a Glen Johnson e cruza a meia altura para a área, vendo a bola ser cortada pelo braço levantado de Jamie Carragher. O árbitro não viu, mas felizmente o árbitro de área ou de baliza ou lá o que é aquela jarra, viu e decidiu agir.
Penalty bem assinalado, o segundo da noite. Novo momento de suspense na Luz, nova reacção igual das bancadas. Goooooooooooooooolo. Cardozo não vacilou.
Não vou falar neste
post sobre as claques. "O Benfica não tem claques!", há-de aparecer alguém a dizer isto por aí. Se aquilo não são claques, o que são? Vão mas é gozar com outro. Amanhã ou depois escreverei sobre o assunto. A minha opinião sobre o tema é simples e já a expressei e desta vez não vou ser meiguinho.

Uma palavra para Jorge Jesus. O homem está sedento de vitórias. A substituição de Maxi por Nuno Gomes revela a mentalidade do nosso treinador. Quem o viu a correr lado a lado com Amorim, Maxi ou Ramires, na segunda parte, pedindo para a equipa atacar em força? JJ é o espectáculo fora das quatro linhas, incrível. No jogo em si, os melhores foram Javi Garcia e Aimar. Cardozo esteve desinspirado, mas daí a dizer que esteve mal vai uma boa distância. Gostei menos do Maxi, que sentiu enormes dificuldades, provando que a entrega e garra são úteis mas não disfarçam os todos os defeitos de um jogador. E ainda nota para o tratamento diferente do "tribunal" da Luz aquando das substituições de Benitez: por um lado, uma monumental assobiadela ao fiteiro Torres, por outro lado uma merecida ovação a Steven Gerrard. Gostei.
Vitória suada mas merecida e que poderia ter alcançado outros números caso os petardos não tivessem interrompido o ritmo de jogo e caso o árbitro tivesse assinalado um
penalty claro sobre Cardozo por patada de Carragher, que deveria ter sido expulso. Agora resta-nos fazer história em Anfield, uma vez mais. Eu acredito. Vamos a eles.