terça-feira, 29 de agosto de 2006

Quando a Rádio... relata!


Não atribuam significado de monta às palavras que se seguem. Encarem-nas antes como um desabafo melancólico de quem aprendeu a gostar de futebol através das ondas Hertzianas de um simples rádio “colado” ao ouvido.

Os tempos são outros. O futebol moderno exige outro tipo de projecção, visibilidade e contrapartida financeira, não se compadecendo com nostalgias ou olhares saudosos quanto a comportamentos uma vez tidos no passado.

Falo-vos, obviamente, das tardes solarengas no Estádio, passadas em família (vivendo nos Açores, não tive esta experiência). Mas falo-vos, igualmente, de um alguém que abria a porta do seu carro para que o relato pudesse ser ouvido (alto e a bom som) pelos amigos e demais que ali passassem. Falo-vos do ambiente sonoro que só uma rádio sabe transmitir. Falo-vos dos voos (na verdadeira acepção da palavra) que o dito aparelho fazia por um golo falhado, por um golo sofrido ou por um golo efusivamente festejado. Coitado do rádio! Meu querido e amado rádio!

Falo-vos das tardes e/ou noites com o rádio na mão, à espera que aquela adrenalina de nada ver e tudo imaginar se transformasse num momento único e mágico: o golo.

Aqueles instantes de perder o fôlego, de sentir-se fora do corpo, de gritar em uníssono, ou mais alto se possível, com o jornalista desportivo o nome do nosso clube. Foi golo do Benfica, Mãe! “Qualquer dia dá-te uma coisa má”, dizia-me ela.

Sabem… ainda hoje vibro e arrepio-me com o relato de um golo do Benfica na rádio!

A bola bate no peito… cola na relva…” … e, naquela língua estranha mas hipnotizadora, lá ia a bola a caminho da baliza para satisfazer o desejo de milhões de adeptos do futebol.

O fenómeno televisivo, no que ao desporto diz respeito, é recente. Devem estar a pensar: “… lá vai surgir uma frase do tipo: no meu tempo…”. Pois… nesse tal tempo os derbys (nem vos falo dos outros jogos) eram ouvidos, para quem vivia longe do estádio, junto aos pequenos rádios. “Bebíamos” cada frase do jornalista de serviço e imaginávamos a pessoa que estava por detrás da voz que nos fazia optar por aquela frequência e não outra qualquer.

Não estou a querer dizer que antes era melhor nem pior. Era… diferente. Ter a oportunidade de visionar todos os jogos do Benfica fez-me aproximar cada vez mais do clube, mas não deixo de me consciencializar que o futebol, tal qual aprendi a gostar, deixou de existir. O velhinho rádio foi esquecido e, muitas vezes, substituído por um comando que, apesar de mais leve, dá-me menos gozo em atirar quando as coisas correm mal (lol). Nem me venham com a ideia de atirar a televisão…

Se pensar que, às vezes, som e imagem (rádio/tv) não coincidem em termos de realidade (convenhamos… na rádio exagera-se um bocadinho) e simultaneidade (som chega primeiro que a imagem), afirmo sem margem para dúvidas que a televisão ocupou o seu espaço (e o de outros) no panorama desportivo, no que à transmissão directa diz respeito. Outra coisa não seria de esperar…

Para além disso, facilmente se troca o calor do estádio (está bem, às vezes faz frio) pelo comodismo do sofá. Pelos horários dos jogos, o convite é pessoal e inequívoco para quem mora longe desses palcos: “deixe-se ficar em casa com uma cerveja na mão”.

Não posso deixar ainda de referir que a televisão e os interesses financeiros a ela associados estão, cada vez mais, a desvirtuar a ideia do “fim-de-semana desportivo”. Antes os jogos eram, maioritariamente, disputados ao Domingo (à mesma hora). Hoje, por interesse óbvio dos clubes, o referido termo assume a forma de 4 dias.

O “futebol paixão” (do ouvido na rádio e presença no estádio) deu lugar ao “futebol – máquina financeira” (o futebol da televisão).

Vossa pergunta: “Agora é que te apercebeste disso tudo?... duhhh!”.
Minha resposta: Não! Apenas gostaria de frisar com este post que, apesar de tudo, nem sempre quando o tempo muda, as vontades também o fazem. Perdoa-me meu querido rádio...

Abraços Benfiquistas.

6 comentários:

T-Rex disse...

Passa por

Vedeta ou Marreta?.

Um abraço.

Anónimo disse...

O t-rex não tens nada para dizer

Veredito = MARRETA

Borsalin disse...

Mais um, excelente, texto do nosso amigo pteixeira.
O tal, que foi uma contratação de peso, para este Blog. Como eu já ouvi dizer!
Amigo, pteixeira, espero que nunca te canses de nos transmitires o que te vai na alma o que te vai, nesse, coração Benfiquista. Sempre, que lemos os teus textos, somos transportados para algum lado.
Os teus textos fazem-nos bem ao ego! Relembra-nos, como é bom ser deste clube, e quanto orgulho temos em pertencer a esta comunidade.
Por isso, continua a brindar-nos com as tuas magníficas palavras.
Obrigado e um Grande abraço!

Borsalin

antitripa disse...

Acho que todos nós sentimos saudade dessa magia que eram os ajuizamentos do aurélio marcio eheheheheh.....agora temos de levar com merdas que mesmo a ver as imagens distorcem tudo! E perguntas tu : "E acreditas no que dizem?" respondo eu: "Eu Não! Mas as ovelhas cá do norte podem ver um lance, se o comentador disser que é ao contrário e se for à corrente deles.....é verdade Universal!SE não....basta-lhes ler o pasquim "onojo" no dia seguinte e é ouvi-los a balir....béééééé´....béééééé´...."

Saudações!

Anónimo disse...

-então e estar no estádio e ouvir o relato desse jogo? Experiência única.

Shoky disse...

Muito bom mesmo...Ao nivel que o pteixeira já nos habituou.

Também eu tenho algumas saudades de estar colado ao rádios à espera do grito:"GOLLLLLLLLOOOOOO....do Benfica".

;)