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domingo, 25 de maio de 2008

Quatro Linhas #8: O treinador do Benfica


Começo por dizer o seguinte: A contratação de Quique Flores foi um bom acto de gestão desportiva de Rui Costa. Apesar do alarmismo geral, o novo director desportivo do Benfica resolveu um assunto muito sensível com astúcia e sobretudo sem reagir aos estímulos exteriores e o nervosismo geral que se apoderava já dos benfiquistas.


Um ponto a favor de Rui Costa, ainda com a sua imagem demasiado amarrada à forma como se deixou deslumbrar pela possibilidade de arriscar uma ida a Manchester para contratar Eriksson, sem que o treinador sueco conseguisse dar-lhe a garantia de que podia ser o novo treinador do Benfica. Ao lado de Luis Filipe Vieira, o novo director-desportivo sujeitou-se ao voluntarismo do presidente do clube que, de facto, tem essa inigualável capacidade de abrir demasiado o flanco e regularmente até demasiado a boca.


Agora, com o presidente convenientemente remetido para a sua função de rainha de Inglaterra do futebol do Benfica, Rui Costa pôde, finalmente, tratar do assunto com profissionalismo e sagacidade. Escolheu Quique Flores e, do meu ponto de vista, escolheu muito bem. Um treinador actualizado, espanhol e antiga glória do Real Madrid. E acabam aqui as semelhanças com Camacho. Flores é um treinador actualizado, muito mais próximo na sua cátedra de treino de Mourinho do que o seu fluente espanhol como indicador de proximidade de Camacho. Os primeiros treinos serão suficientes para fazer a demonstração dessa diferença.


Esta decisão marca também a separação de ideias entre Rui Costa e o presidente do Benfica. Quando Filipe Vieira recorreu a Camacho, fê-lo porque precisava, mais do que um treinador, de um amigo que pudesse oferecer o corpo às balas que a época traria e permitisse a Vieira esconder-se atrás dele. Foi o que aconteceu e Vieira demonstrou o seu amadorismo na gestão desportiva. Agora, Rui Costa confia em si próprio, no seu trabalho, arriscando mesmo o seu prestígio e traz um treinador de última geração em Espanha. Não foi contratar um pára-choques, pelo contrário, percebe-se que está disponível ele para defender o treinador e não o contrário, defender-se com o treinador. É a grande diferença com que os benfiquistas podem contar para a próxima época, entre Rui Costa e Luís Filipe Vieira.


De todo o modo, convém notar que Rui Costa fez bem em esperar pelo presidente do Benfica para fazer a apresentação do novo treinador. Porque demonstra respeito pelas hierarquias e foge, talvez deliberadamente, à estratégia de Filipe Vieira de auto-desresponsabilização de tudo o que vier a passar-se na próxima época. Especialmente se o Benfica adiar uma vez mais o regresso às vitórias. Acho que Rui Costa não podia deixar que isso acontecesse e assim todos ficam a perceber que o presidente do Benfica continua a ser Filipe Vieira e não Rui Costa. E no futuro, aconteça o que acontecer, ele, Filipe Vieira terá sempre de assumir as suas responsabilidades. Se o Benfica perder, é mais uma vez o seu projecto que perde, se o Benfica ganhar, ninguém pode esquecer que será uma vitória de Filipe Vieira, para juntar a outras do seu longo mandato no clube.


A apresentação de Quique Flores foi realizada no sábado e logo no domingo de manhã, pela fresca, o comentador Luís Freitas Lobo, na RTPN, demonstrou o que pode esperar o treinador espanhol se falhar qualquer coisa. De acordo com este comentador o Benfica aposta num treinador que ainda não venceu títulos como treinador – é um facto – e não num português, apenas porque Flores é espanhol. O problema para Freitas Lobo não é ser espanhol, é ser estrangeiro. Vindo de um comentador, de quem as pessoas esperam análises lúcidas e descomprometidas, acho esta ideia completamente desparafusada. Primeiro porque demonstra desconhecimento da história do Benfica. Quantos treinadores portugueses foram campeões pelo Benfica? Muito poucos. Quantos treinadores portugueses falharam no Benfica e ganharam noutros clubes portugueses? Exemplos mais recentes? Mourinho, Jesualdo e Fernando Santos. Mesmo Paulo Bento não teria nunca, no Benfica, a mesma tolerância que tem no Sporting. Não perceber isto é não perceber o alcance da decisão correctíssima de Rui Costa. Mas percebo, no entanto, uma certa coerência em Freitas Lobo, um dos comentadores que mais caricaturou o recente percurso de Camacho no Benfica, defendendo igualmente como contrapeso o trabalho realizado por Fernando Santos.


Deixa-me, no entanto, tranquilo, que Rui Costa apareça como director-desportivo do Benfica e Freitas Lobo como comentador. Acho que os benfiquistas se lamentariam muito mais do seu clube se fosse ao contrário. Freitas Lobo como director-desportivo do Benfica e Rui Costa comentador. Porque um director-desportivo do Benfica tem de conhecer o futebol com uma profundidade que vai muito para além das basculações, das pressões altas e do ajuntamento das linhas. É preciso, desde logo, conhecer a natureza do clube. E, no Benfica, actualmente só dois treinadores portugueses podiam escapar a essa fatalidade histórica de se considerar maligna a nacionalidade portuguesa para um treinador do clube. Seriam Carlos Queiroz, primeira opção de Rui Costa e Mourinho. E estes dois porque, muito para além de portugueses, são cidadãos do mundo. Imunes à pressão insuportável que qualquer treinador português enfrentaria no Benfica. E é isto que Quique Flores, não por ser espanhol mas por ser estrangeiro, não terá de enfrentar inicialmente. Um treinador português, dos que Freitas Lobo escolheria, chegaria ao Benfica trazendo desconfiança, Flores vai trazer expectativa. É nesta diferença que estará o tempo que o novo treinador do Benfica precisará para compor a sua ideia e organizar as suas ideias.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Quatro Linhas #7: Recordes há muitos!

Existe por aí, em certa imprensa, talvez eufórica pela exuberante diferença de pontos que separa o campeão anunciado do Benfica, desejosa de reescrever a história. São, nesta altura, bem contados, dezasseis pontos que marcam a diferença entre a melhor e mais consistente equipa do campeonato e a anémica e desorganizada junção de jogadores que semanalmente o Benfica deita para o campo na ilegítima esperança de ganhar qualquer coisa mais que não seja experiência para o futuro. Porém, quando passo a vista no jornal o “Público” e deparo com o foguetório jornalístico a pretexto da iminente queda do recorde de pontos de vantagem sobre o segundo classificado, que o Benfica ainda detêm, verifico essa tentativa desesperada de passar uma esponja sobre a história, de forma a que todos acreditem que o hiper-poderoso FC Porto está prestes ao Benfica mais uma das suas marcas da supremacia histórica no futebol português.

Para isso é que servem os adeptos. Para que estas tentativas não consigam fazer o seu caminho, é necessária uma sentinela permanente sobre estes atentados à grandeza do Benfica. Vejamos, uma coisa é a actual equipa de futebol e outra é a grandeza adquirida pelos clubes. Nesse aspecto, o Benfica é o maior e assim continuará. São trinta e um títulos, vinte e duas taças de Portugal. E mais uma série de recordes que o vitorioso FC Porto de Pinto da Costa nunca conseguiu ultrapassar e tão pouco igualar.

Um deles é o da pontuação que diferencia o campeão da equipa que lhe fica imediatamente a seguir nos lugares de cima da classificação. Na época de 72-73, o Benfica de Jimmy Hagan chegou ao fim da linha fixando a diferença para o segundo classificado em 18 pontos. Pois bem, é esse mítico e imbatível recorde que o jornal “O Público” extemporaneamente propõe que o FC Porto de Jesualdo Ferreira consiga igualar ou até mesmo erradicar do mapa, com a alegação daninha de que os futuros tri-campeões de Portugal podem conseguir agora, no final deste campeonato, alcançar uma diferença de pontos superior à marca histórica do Benfica de Hagan.

Pois bem, concordo em muitas coisas com Valdano e Menotti. Numa delas, alinho na ideia de que o futebol só se conhece a si mesmo se tiver respeito pela memória e pela tradição. Este é um dos casos em que é preciso ter memória. Na década de setenta, se bem se lembram, o sistema de pontuação era diferente. Uma vitória, dois pontos, o empate valia exactamente o mesmo que vale agora. O jornal “O Público” fez as contas por mim e converteu a diferença de pontos entre o Benfica e o segundo classificado na época de 72-73 na pontuação actualmente vigente no campeonato. Daria, pois, uma diferença de 32 pontos. Este sim, é o número recorde actualizado de pontos que um campeão em Portugal conseguiu arrecadar num mesmo campeonato de diferença para o segundo classificado. Portanto, muito longe dos anunciados 18 pontos que o FC Porto de Jesualdo Ferreira estará perto de bater. E, na época de 72-73, o número de jornadas do campeonato era exactamente o mesmo que o da Liga Bwin. Dezasseis equipas, trinta jornadas. Daqui se conclui que o recorde do Benfica, um de muitos que o clube ainda mantêm como demonstração da sua supremacia histórica no futebol português, se vai manter intocável e imbatido.

Apesar das esforçadas tentativas de reescrever a história, os adeptos do Benfica não deixarão que isso aconteça. Basta lembra 32 pontos de diferença, quase tantos como o número de títulos conquistados e já agora quase tantos como o número de jogos sem derrotas num só campeonato. Ainda com Jimmy Hagan, o Benfica, na década de setenta, conseguiu ganhar por uma única vez em toda a história do futebol português, um campeonato sem derrotas. Melhor dizendo, 28 vitórias e apenas dois empates. E já agora, que estou embalado, de recordar que na mesma década, com outro treinador inglês, John Mortimore, o Benfica entrou no top ten de recordes mundiais de invencibilidade no campeonato. Foram 53 jogos consecutivos sem perder. É como diz Valdano e Menotti. A memória ajuda muito a encontrar os caminhos próprios da grandeza. E os benfiquistas não esquecem isso. Por muito dolorosos que sejam os tempos actuais.

PS – Este é o Benfica que Luís Filipe Vieira anda a prometer à seis anos consecutivos. Sem sucesso. As diferenças entre o Benfica prometido e o Benfica real devia fazer os benfiquistas pensar.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Quatro Linhas #6: Um Benfica sem oposição!


Começo esta crónica, recordando uma das datas mais nefastas da história recente do Benfica. O local do crime é Vila do Conde, onde o Benfica seria derrotado nessa ventosa noite de Inverno. Uns dias antes, o presidente do clube, Manuel Damásio, esteve nas instalações do Finibanco a apresentar o seu projecto de sociedade desportiva para o Benfica a um conjunto de luminárias benfiquistas a quem o costume e a classificação apressada da imprensa aprendeu a designar de “notáveis”. Confesso que nunca percebi muito bem esta designação, especialmente num clube que tem, segundo se diz, seis milhões de “notáveis”. Pois bem, agora que sei o que se passou nesse pequeno conciliábulo de benfiquistas, mais desprezo tenho por essa extraordinária categoria de adeptos do Benfica, uma espécie de catálogo de primas-donas do espectáculo folclórico que dá corpo a uma ténue existência de oposição no clube. Assusta-me pensar que pode sair de um destes bestuntos a simples ideia de criar motivação nos sócios do Benfica a mudar de novo para um tipo de aventureirismo que o clube já pagou demasiado caro.

Nessa reunião, num dos gabinetes do Finibanco, Manuel Damásio e sua direcção explicaram o seu projecto. O Benfica tinha previsto um encaixe de dezoito milhões de contos – digo bem, contos, não euros – o que significava que a incensada sociedade desportiva do projecto Roquete no Sporting acabaria ridicularizada pela grandeza destes números. Um desses notáveis, referiu mesmo a Manuel Damásio que o seu projecto de SAD, era “fantástico e confirmação do prestígio do clube”. Para que se tenha uma ideia, toda a imprensa portuguesa estava ainda babada pelo superior exemplo sportinguista, que arrecadara dois milhões de contos em subscrições de acções da SAD do clube de Alvalade. O projecto de Manuel Damásio permitia ao Benfica ganhar o futuro, ganhando 80 milhões de euros. Tudo documentado. Isto existe, eu próprio guardo uma cópia dessa relíquia, de cada vez que o meu inconformismo pelo estado actual do clube me leva a prolongados suspiros por uma espécie de revisionismo que eu gostaria de fazer em certos acontecimentos.

A reunião passou-se, Manuel Damásio convenceu-se do apoio expressivo de alguns dos sócios mais ilustrados do clube e passou a dormir mais descansado nessa semana. Porém, poucos dias depois, nessa noite em Vila do Conde, o Benfica deixou mais uma fraca e bisonha imagem do clube dominador que tinha sido no passado e Manuel Damásio, de repente, fica numa posição de enorme enfraquecimento perante os sócios. Uma Assembleia Geral do clube confirmaria as piores previsões, chumbando o projecto de sociedade desportiva da direcção. Entre os “altifalantes” mais destacados do Benfica, censurando o projecto, lá estavam alguns dos mesmos “notáveis”, que poucos dias antes o tinham elogiado. O resto da história todos sabem como terminou. Manuel Damásio renunciou ao seu mandato, ferido na sua legitimidade e os seus adversários puderam, durantes todos estes anos, continuar com uma pungente dedicação à má-lingua, de cada vez que o Benfica entra numa espiral de resultados negativos. São quase sempre os mesmos e Deus nos livre e guarde de um dia assaltarem a caixa-forte do clube.

O Benfica precisa, mais do que nunca, de massa crítica. Não precisa de oportunistas, que esperam apenas por uma oportunidade que a generosa imprensa desportiva ciclicamente lhes dá de nos exibir a sua vaidade e existência. O Benfica chegou a este ponto de não ter uma hipótese credível de escolha entre uma direcção que dirige mal e uma oposição que se opõe, apenas por maneirismo e feitio. Mais do que os cem jogadores contratados por Filipe Vieira, os seis treinadores em quatro épocas, os anúncios pomposos e cada vez mais ridículos que desta vez é que vai ser e a gritante transformação do Benfica em cemitério de jogadores, treinadores e directores-desportivos, mais do que tudo isso, o que causa verdadeira urticária, é o actual estado de coisas do lado das alternativas. Sinto o Benfica inane, em que são mais as vozes da reacção do que a própria reacção. Incomoda-me esta anestesia geral que afecta os benfiquistas, incapazes de se revoltar contra um presidente que acha que pode continuar a passear pelos intervalos da chuva sem se molhar e uma oposição que leva demasiado a sério a sua ridícula importância.

Um destes dias ouvi António Simões. Antiga glória do Benfica, pessoa educada e de boa composição intelectual. Nas ondas da rádio, Simões não foi naquela maré anódina de comentários de ex-jogadores que apenas dizem o que o actual presidente do clube tolera. Não. O que disse Simões de tão profundo? Que não percebia como é que Filipe Vieira ainda não tinha assumido as suas responsabilidades na lástima a que chegou o futebol do clube. E, de facto, é preciso que se note, que não é o único a não perceber. Um homem contrata e descontrata, constroi e descontroi, faz o que quer e lhe apetece com total impunidade e qual é a sua reacção perante o desastre? É a de fazer de conta que faz sempre parte de um filme distante. No Benfica actual, entre mortos e feridos, alguém há-de escapar. O que me impressiona é que os benfiquistas não se apercebam que é sempre o mesmo a escapar. Ileso e sempre pronto para outra. Enquanto isso, a oposição é um vegetal e o Benfica um clube adiado.

terça-feira, 4 de março de 2008

Quatro Linhas #5: Super-Bynia!


A generosidade é um bem. O carácter é outro. Num campo de futebol, um e outro distinguem os bons jogadores. Não há caçador de talentos que não procure o bem inestimável de um jogador que se oferece ao sacríficio de lutar por outros. Se escrevo isto, é porque acho que alguém deve dar um prémio de reconhecimento ao mais extraordinário exemplo de carácter e generosidade visto no derby. Chama-se Bynia e será, nos próximos anos, um dos médios de referência do Benfica e, por extensão, do futebol português.

Recordo uma conversa com Rui Águas, director de prospecção, ainda antes do início da época. Eu estava de férias, mas pretendia manter-me actualizado com as hipotéticas contratações do Benfica. Nessa altura, Bynia ainda era outro nome qualquer para os adeptos portugueses e mantinha-se à experiência no Estrela da Amadora. O antigo treinador do Benfica, Fernando Santos, mantinha dúvidas sobre a qualidade do jogador e Rui Águas ainda não tinha conseguido reforçar a sua posição na estrutura interna do clube. Principalmente, na esfera das grandes e mais estratégicas decisões. Porém, o talento de Bynia estava descoberto pelo Benfica. Disse-me Rui Águas: «Joga em qualquer posição do meio-campo e pouco interessa se é losango ou 4-3-3. É um diamante que o Benfica não pode, nem vai deixar escapar.» Depois disso, jantei tranquilo, junto às águas cálidas do Mediterrâneo. Embalava-me para um sono profundo, a ideia de que o Benfica tinha regressado a uma tradição honrada e longínqua de contratar bons jogadores em sítios que outros não suspeitavam sequer que pudesse haver vida inteligente. E, sobretudo, tinha uma garantia: a opinião de Rui Águas.

Quem viu a memorável exibição de Bynia no estádio de Alvalade, tem de concordar em duas coisas: o internacional camaronês é um craque mental e Rui Águas um dos mais competentes detectores de talento a quem o Benfica podia entregar essa espinhosa missão de avalizar a contratação de jogadores. Como todos sabem, nos últimos anos, contratar jogadores tem sido um bicho de muitas cabeças para o clube. Bom para alguns comerciantes de talento, por vezes ruinoso para o Benfica.

E bem se pergunta: Custou assim muito trazer Bynia, já esta época para o Benfica? Custou algumas centenas de milhar de euros e o despedimento de um treinador. Porém, olhando para todo aquele potencial físico e mesmo técnico – nas suas características não encontro nada que o aproxime do estilo tosco e desajeitado de muitos médios do nosso campeonato -, surge a comprovação de um grande negócio para o Benfica e realizado no tempo certo. Aliás, se as estatísticas no futebol têm alguma utilidade, podem servir de muleta a quem pretende desmentir uma das mentiras de perna mais curta do futebol português. A de que Bynia é um jogador maldoso e sem especial apreço pela canela do adversário, não sabendo, ao que se diz, sequer onde ela começa e acaba. Isto não é verdade. Bynia é um jogador correcto, dotado de um auto-regulador de agressividade que o leva a saber até onde pode ir, especialmente depois de um cartão amarelo e apenas com algumas imperfeições no seu instinto que o tempo apagará.

Aliás, é de uma maldade pura essa consideração geral de que Bynia é um jogador violento. Não é. E só tenho pena que os autores dessa piedosa mentira, se babem com o exemplo nefasto do jogo do Celtic, mas que muitos deles não consigam, sequer, pronunciar o nome de um indivíduo que quase passou o pé de Eduardo da Silva para a secção de perdidos do Emirates Stadium. E serão comparáveis as situações? E onde está a UEFA, para mais uma exemplar demonstração da sua justiça negra? Eu digo-vos onde está. No mesmo sítio do costume. Do lado dos poderosos e do dinheiro.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Quatro Linhas #4: A entrevista


Este próximo post é o resumo de um encontro acidental entre o jornalista José Marinho e o autor de vários textos no blogue Eterno Benfica, José Marinho. A conversa foi animada, porém, por falta de espaço, apenas reproduzimos o essencial desse “meeting”.

JOSÉ MARINHO – Então como é que chegaste a este blogue e como é que aceitaste expor o teu benfiquismo, logo num país que não aceita nenhum tipo de exibicionismo clubístico dos jornalistas?

JOSÉ MARINHO – Pois bem, acontece que fui convidado por um dos autores do blogue e porque me apetece fazê-lo. Já era benfiquista antes de ser jornalista, mas o facto de ser benfiquista nunca me condicionou no exercicio das minhas funções jornalísticas. Um exemplo, entre muitos: na Sporttv estive cinco anos sem fazer narrações de jogos dos três grandes do nosso campeonato, depois de uma narração que fiz de um célebre jogo entre o Nacional e o Benfica. Dentro do meu estilo fiz uma série de considerações que os adeptos do Benfica não gostaram – eu, se calhar como adepto também não gostaria – e, na Sporttv, porque consideravam o meu estilo muito agressivo, muito opinativo, puseram-me de castigo. Durou quase cinco anos. Portanto, ser benfiquista nunca afectou o modo como realizava o meu trabalho. Mas sou do Benfica e gosto de interagir com outros benfiquistas. Estou neste blogue como se estivesse à mesa de um café. Estou a gosto.

JM – Mas já te acusaram de ser o porta-voz de uma oposição ainda sem rosto?

JM – Tem piada, não tem. Umas ideias, dois ou três textos e várias opiniões depois, já sou da oposição. Mas pergunto: Oposição a quem e a quê. Oposição ao Benfica? Ao seu presidente? Como qualquer benfiquista que se preze, sou oposição aos maus resultados. De resto, é assustador que algumas pessoas possam perder tempo a pensar assim. É ridículo. Estou em minha casa, em Santarém, estou a descansar de dez anos cansativos na Sporttv e escrevo porque gosto de o fazer e porque não há nenhuma lei que o proíba. O resto é paisagem.

JM – Mas críticas Luís Filipe Vieira e dizes que és amigo de José Veiga?

JM – Também sou amigo de José Mourinho e não estou a pensar ir com ele para o seu próximo clube. Também sou amigo de Jorge Valdano e não cabe na minha cabeça fazer as malas e emigrar para Madrid. Felizmente sou amigo de muita gente. Tenho grandes amizades no Benfica e isso não quer dizer que pretenda ir trabalhar com eles. O que vou fazer no futuro próximo não tem nada a ver com o Benfica, mas não deixarei de ser benfiquista. Claro que sou amigo de José Veiga e se isso incomoda muita gente, é um problema que me ultrapassa e que não posso ajudar a resolver. Mas o que eu mais desejo é que no final da próxima época o livro que escrevemos juntamente com o Camilo Lourenço, fique desactualizado. “Como tornar o Benfica campeão?” é um título que cabe ao próprio clube desactualizá-lo. Sou amigo de Veiga, mas nunca disse que ele é a única pessoa que pode levar o Benfica ao sucesso. Tenho grandes expectativas em Rui Costa, confio ilimitadamente na sabedoria de Rui Águas, deixa-me satisfeito pensar que Mozer está de regresso e principalmente gostaria que o Benfica ganhasse o campeonato. Não é nenhum crime, assim como não é apontar os erros que a actual direcção cometeu e continua a cometer. Com ou sem Vieira, o que me interessa mais é que o Benfica ganhe, porque senão tenho dificuldades em casa, em evitar que os meus filhos mudem de clube. Este é o grande problema actual do Benfica, perder a sua esmagadora base de apoio. Aliás, mais do que ser contra Vieira, eu sou contra o vieirismo no Benfica. Aquelas pessoas que estão sempre do lado da situação. Hoje estão com Vieira, amanhã estarão com outra pessoa qualquer.

JM – Então vais continuar a escrever no Eterno Benfica?


JM – Enquanto sentir gozo nisso e enquanto quiserem que escreva e, finalmente, enquanto sentir que isso não é incompatível com a minha actividade profissional. E claro, enquanto isso irritar alguns anónimos que por aqui andam.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Quatro Linhas #3: A fuga de Miccoli



O tempo é sempre uma oportunidade dada pelo destino. Há quem aproveite o tempo para fazer a coisa certa e quem o trate com desprezo, demasiado confiante numa capacidade cega e automática de que tem razão em tudo o que faz ou em tudo o que diz. Nos últimos três anos, depois de ter ganho o campeonato com Trapattoni, o presidente do Benfica ganhou um novo passatempo. O de destruir tudo o que tinha pacientemente realizado. Uma boa equipa, a recuperação do clube e a defesa homogénea de um processo judicial que ajudou a criar uma unidade impensável no país contra a batota e a pouca vergonha.

Justamente, há três anos atrás, disse num programa da Sporttv, que Luís Filipe Vieira arriscava-se a entrar para a história do Benfica como um dos mais decisivos e reconstrutores presidentes da história do clube. Pois bem, o tempo foi passando e o presidente do Benfica foi-se desviando do seu caminho e eu da minha convicção. O livro de José Veiga, que ajudei a escrever, é uma explicação para o que aconteceu nas últimas épocas. Não é a única mas devia ser esclarecedora. Nos últimos três anos, o Benfica não apenas perdeu uma oportunidade histórica de arrumar com o “sistema” a um canto, como ainda lhe proporcionou uma nova e inesperada vida.

Não discuto com os benfiquistas a bondade da decisão de afastar José Veiga do centro de decisões fulcrais do futebol do clube. Eu penso que foi uma decisão que não defendeu os interesses do Benfica, mas admito outras opiniões. Sobretudo porque existe um constante bombardeamento de alguma imprensa, controlada pela SAD do Benfica e que serve o objectivo de condicionar os jornalistas e mentir aos adeptos.

Concretizando melhor: O jornal Diário de Notícias publicou recentemente uma alegada entrevista de Miccoli ao jornal, onde, entre várias citações, é anunciada a extraordinária candura de um desmentido do jogador italiano a várias revelações contidas no livro de José Veiga. O propósito era o de assegurar que os benfiquistas fossem intoxicados com a conveniente reposição dos factos. Se tudo corresse bem, ninguém daria pelo facto e o presidente Vieira saia em ombros da situação, alegadamente ilibado pelo jogador da sua transferência para o Palermo.

Acontece que no livro de José Veiga, além de outros assuntos, o episódio nele contido sobre o modo como o Benfica se desinteressou da permanência do jogador italiano, foi tratado por mim. E então é importante que se diga: Em vinte e cinco anos de carreira nunca dei a ninguém a mínima oportunidade a que me chamassem mentiroso. Tenho escrúpulos, sempre tive, sempre recusei muita proximidade em relação aos agentes desportivos, exactamente porque sei como é que se compram notícias e influências e porque está claro que a actual estratégia comunicacional do Benfica passa quase em exclusivo por arranjar moços de recados que ajudem a descredibilizar o livro de José Veiga e algumas das suas passagens mais desconfortáveis.

Daí que possa assegurar que as declarações de Miccoli ao Diário de Notícias inauguram talvez um novo conceito de jornalismo. O das entrevistas-fantasma. Nesse mesmo dia pude falar com Francisco Caliandro, advogado e representante de Miccoli que confirmou as minhas piores expectativas: O jogador não deu entrevista nenhuma. Fiquei sossegado com a minha consciência, porque tinha sido o mesmo Francisco Caliandro a contar-me todo o episódio da proclamada fuga de Miccoli para Itália. E, de novo, confirmou-me que o Benfica teve a possibilidade de contratar em definitivo o jogador por três milhões de euros, que Miccoli aceitava baixar os seus vencimentos de modo a ajustá-los à tabela salarial do clube, que o jogador renunciou a jogar no FC Porto e que esperou até ao limite do insuportável por uma resposta do Benfica. Aliás, ainda hoje está à espera que a SAD benfiquista lhe diga se mantém interesse na negociação.

O que está mal neste processo todo não é que o Benfica se tenha desinteressado da contratação definitiva de Miccoli. Eu próprio tenho muitas dúvidas que fosse recomendável ao Benfica gastar tanto dinheiro – entre salários e passe do jogador – na sua fixação no plantel do clube. Continuo a pensar que a opção em contratar Cardozo é mais sensata e desportivamente mais equilibrada. Alguns podem descrer, mas o atacante paraguaio permitirá ao Benfica, no futuro, pulverizar todos os recordes de transferências em Portugal. O que me agonia em todo este processo é a mentira, como se ela fizesse parte de um acto normal de respiração. A SAD do Benfica deve assumir que desistiu de Miccoli porque esse foi um acto legítimo de gestão desportiva e, provavelmente, uma louvável poupança de meios financeiros.

De uma vez por todas, o Miccoli não permaneceu no Benfica porque o Benfica não quis. E se querem a minha opinião, fez bem.

P.S – Apenas um esclarecimento. Ou tanto melhor, dois. Não fui despedido da Sporttv. Apenas me desafiei a mim próprio a testar a minha capacidade e os meus conhecimentos noutro âmbito da comunicação. A dos clubes de futebol. A decisão foi minha, foi contestada pela empresa que pretendia a minha permanência e foi antecedida de muita reflexão. Também não saí porque estivesse a fugir do actual presidente do Benfica, que prometeu a várias pessoas no clube e na SAD que ia «fazer-me a folha». Não me perdoa a participação no livro de José Veiga e sei que tudo fará para me prejudicar no futuro. Uma coisa é certa. Se este é o preço que tenho de pagar pela minha amizade com José Veiga, pois então, estou a disposto a pagá-lo. As minhas amizades sou eu que as escolho. Só não consigo explicar aos meus filhos como é possível gostar tanto de um clube e ter um presidente do mesmo clube atrás de mim com um desejo tão sádico de vingança.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Quatro Linhas #2: Salir a jogar!


O donativo de Camacho à posteridade está assegurado. A forma limpa e crua como se refere a cada jogo é a matriz de pensamento de um treinador à moda antiga. Não é apenas o “salir a ganar”, é também o entrar à Benfica. Aos jogadores, o treinador espanhol repete a mesma cassete: «O primeiro canto é nosso, a primeira falta é nossa, o primeiro golo é nosso». Há trinta anos atrás, quando Camacho jogava no Real Madrid, as coisas passavam-se assim. Era uma espécie de superioridade moral conquistada sobre o adversário, a que uns anos mais tarde, Jorge Valdano chamou medo cénico do Santiago Bernabéu. O problema para Camacho é que o futebol está mais sofisticado e o treinador do Benfica parou nessa definição aúrea do jogo.

Infelizmente para Camacho, não basta ao Benfica “salir a ganar”. Seria, aliás, mais astuto que a equipa pudesse “salir a pensar”. O treinador espanhol continua a viver nessa grandeza moral de um ex-jogador do Real Madrid a quem bastava mostrar a camisola do clube para que as trincheiras adversárias se enchessem de desertores. E pensa Camacho que em matéria de grandeza, o Benfica e o Real Madrid estão bem um para o outro. É certo, mas os jogadores actuais do clube estarão preparados para essa sobrecarga de história? A leveza actual dos equipamentos vale pouco se Camacho insistir em vestir aos seus jogadores aquela roupa mental que continua a guardar desde os anos setenta e oitenta. O fardo é muito pesado para o actual plantel.

O jogo com o Nuremberga demonstra que uma equipa de futebol deve ser muito mais do que a súmula histórica do clube que a serve. Isto é válido para o treinador como é para os adeptos. No futebol, não há ninguém mais saudosista que os adeptos. E se, porventura, esse saudosismo mina a relação entre uma equipa de futebol e os seus apoiantes, os atalhos para a vitória ficam mais dificeis de descobrir. Nos dias que antecederam o jogo, até Eusébio insistiu nesse peditório nacional dos dois pontas-de-lança. Igual a Camacho, o Rei pertence aos anos sessenta, às Taças dos Campeões Europeus e à hegemonia clara e indiscutida do Benfica e do Real Madrid nos dois contextos possíveis: interno e europeu.

E agora, como explicam os autores desse peditório, muitos deles espalhados pela boa imprensa que ainda calcula que anterior ao talento são as camisolas que ajudam a ganhar os jogos, que o Benfica só tenha conseguido jogar futebol sério e perigoso, depois de Camacho desfazer a promitente dupla de pontas-de-lança? Sim, e agora? A primeira parte do jogo parece ter sido a revelação final de que o treino é, no futebol actual, o parente mais chegado das vitórias no futebol. Não se discute que uma equipa deva jogar como treina, mas já parece um ataque frontal à sensatez que uma equipa em poucos dias mude tão radicalmente a sua identidade. E fê-lo através do treino, em três ou quatro sessões de aprendizagem rápida, ou fê-lo para reagir a um impulso de popularidade? Se o Benfica quiser jogar com dois pontas-de-lança pode fazê-lo, não há nenhuma lei que o proíba, mas deve esperar pela recuperação de Nuno Gomes, que é o único avançado no plantel capaz de oferecer complementaridade ao seu parceiro no ataque e mobilidade à equipa na forma como se consegue mover entre-linhas.

Seria igualmente necessário que a equipa pudesse desenvolver, entretanto, outras dinâmicas no meio jogo, de forma a que a equipa possa atravessar as linhas do adversário com movimentos que ajudem à sua desconstrução defensiva. Diante dos alemães, com dois jogadores altos e pesados no ataque, quem estaria à espera que fosse Cardozo ou Makukula a fazer movimentos em profundidade um em relação ao outro, ou deslocamentos laterais que permitissem as rupturas dos jogadores do meio-campo? Só mesmo o treinador alemão é que podia ter sonhado com isto na noite anterior ao jogo.

E de que adianta colocar duas masmorras no ataque, sem uma área de serviço em condições de oferecer aos atacantes outra coisa que não seja o constante apedrejamento de bolas, vindas da sua área, por express-mail, despejadas inutil e inconscientemente à procura do ganho de uma segunda bola que permita à equipa ganhar posições para atacar a baliza do lado que interessa? Onde estão os movimentos dos médios-ala, à procura de zonas interiores do campo, juntando-se a Rui Costa na última fase de construção e oferecendo a Léo, do lado esquerdo e a Nélson do outro lado, a possibilidade de assegurarem o jogo exterior? Não há nada disto no Benfica. Aquilo a que muitos chamam dinâmica é isto. Uma invenção do futebol moderno que evita que os jogadores corram muito, dando-lhes a possibilidade de correr melhor. É por isso que ao Benfica não lhe interessa “salir a ganar”. É muito melhor “salir a jogar”.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Quatro Linhas #1: O Ciclo Preparatório


Caros bloguistas:

Inicio aqui uma colaboração com o Eterno Benfica que coincide com a minha renúncia ao jornalismo. Após vinte e cinco anos atrás das ideias dos outros, acho que chegou a altura de construir o meu próprio património ideológico. Faço-o nesta altura em que ainda desconheço o que farei no futuro para manter bem alimentadas as duas pequenas bocas que tenho em casa, mas que gritam desde a sua nascença pelo mesmo refrão que forrou a minha ascendência futebolistica: «slb, slb, slb, glorioso slb, glorioso slb». Para os meus filhos, como para mim, sempre será uma senha para a felicidade pura e indiscutível. Mesmo nas derrotas, mais do que nas vitórias, sempre soube encontrar no Benfica uma estranha tendência para me sentir feliz. Apesar de Pringle, Escalona, Rojas, El Hadrioui, Beto, Fernando Aguiar e muitos outros que se desviaram da reputação internacional do clube, mesmo assim, há coisas que o clubismo sério e profundo aprende a desculpar. E até pode ser uma forma poética de amar o jogo, pela diferença, pelo sacríficio e pelo canto do olho, único espaço que certos jogadores podem ocupar enquanto entretemos a retina com Chalana, Alves, Eusébio, Valdo, Rui Costa e mais recentemente Cardozo.

É verdade, tenho uma estima pessoal e já muito desenvolvida pelo atacante paraguaio. Dizem os meus amigos mais chegados – benfiquistas claro, de outro modo não seriam os mais chegados – que é lento. Outros dizem-me que uma girafa tem uma locomoção mais elegante. Aos primeiros digo que as melhores imagens numa transmissão televisiva de futebol surgem-nos em super-slow-motion. É assim que vejo Cardozo e a sua atípica graciosidade. Em qualquer transmissão de um jogo do Benfica já me habituei a dispensar as imagens em câmara lenta. Já tenho Cardozo e chega-me. É craque. Ainda pouco assimilado pela equipa e pelo treinador que sempre desconfiou dele, Cardozo faz golos ao mesmo tempo que faz pela vida. Não está certo, porque um jogador destes não tem de fazer mais do que as suas características recomendam. Tenho de recordar a premonição do meu amigo José Veiga, quando me disse, ainda na Argentina, quando tentava arrancar ao Newell’s Old Boys o seu abono de família: «Dentro de dois anos será um dos melhores pontas-de-lança do futebol europeu». Como sabem José Veiga não estava na Argentina mandatado pelo seu instinto, mas sim pelo presidente do Benfica. Não foi assim há tantos meses que não se lembrem. Pois bem, tenho de agradecer aos dois pela contratação de Cardozo para o Benfica. E tenho, igualmente, de dar razão a Veiga quando ele me anunciou, por telefone, a contratação do atacante paraguaio. «Com Cardozo e Miccoli, servidos por Simão, vamos ser campeões».

Para muitos benfiquistas este “vamos” tem muito que se lhe diga. Porque se recusam a aceitar a entrada de José Veiga na maravilhosa família benfiquista, considerando-o um convertido de quem é melhor desconfiar. Pois bem, mesmo assim, o antigo director-geral continua a recusar o pagamento de quotas noutro clube que não seja o Benfica e isso tranquiliza-me. Mesmo que por motivos de saúde fosse obrigado a frequentar as piscinas do Sporting ou que fosse uma vítima da inoportunidade de um amigo que não cedesse à tentação de lhe pagar as quotas no FC Porto.

O Benfica tem Cardozo e estou grato por isso. E de pouco adiantam os estranhos telefonemas que tenho recebido com a gritante informação de que o preço do jogador teria ganho espectacularmente pernas e que estaria algures a meio do Kilimanjaro, subindo, subindo, subindo, até aos quinze milhões de euros. Confesso que não sei se a intenção é despejar a responsabilidade do negócio em cima de quem esteve na Argentina a negociar a transferência do jogador. O que sei é que quem lá esteve tinha um mandato. E passado por alguém que reconhecia em Cardozo, talvez, não sei, o início de um novo ciclo. Como muitos sabem, nos últimos tempos, o Benfica está a especializar-se em ciclos. São de pouca duração, mas acredito na bondade de todos eles. Aceito-os como a experimentação necessária para chegar ao Grande Ciclo. O das vitórias.

Além do mais, Cardozo ainda vai dar aos benfiquistas muitas alegrias. E quando for tempo disso, dará também ao Benfica a oportunidade de pagar o investimento e se calhar contratar mais dois ou três Cardozos. Será o tempo em que o Benfica se comporta no mercado com uma estratégia seca e linear. Bons a comprar e melhores a vender. O futuro director-desportivo, Rui Costa e o actual director da prospecção, Rui Águas, parecem-me as pessoas certas. Para acabar de vez com o ciclo preparatório.

José Marinho

domingo, 10 de fevereiro de 2008