
Começo por dizer o seguinte: A contratação de Quique Flores foi um bom acto de gestão desportiva de Rui Costa. Apesar do alarmismo geral, o novo director desportivo do Benfica resolveu um assunto muito sensível com astúcia e sobretudo sem reagir aos estímulos exteriores e o nervosismo geral que se apoderava já dos benfiquistas.
Um ponto a favor de Rui Costa, ainda com a sua imagem demasiado amarrada à forma como se deixou deslumbrar pela possibilidade de arriscar uma ida a Manchester para contratar Eriksson, sem que o treinador sueco conseguisse dar-lhe a garantia de que podia ser o novo treinador do Benfica. Ao lado de Luis Filipe Vieira, o novo director-desportivo sujeitou-se ao voluntarismo do presidente do clube que, de facto, tem essa inigualável capacidade de abrir demasiado o flanco e regularmente até demasiado a boca.
Agora, com o presidente convenientemente remetido para a sua função de rainha de Inglaterra do futebol do Benfica, Rui Costa pôde, finalmente, tratar do assunto com profissionalismo e sagacidade. Escolheu Quique Flores e, do meu ponto de vista, escolheu muito bem. Um treinador actualizado, espanhol e antiga glória do Real Madrid. E acabam aqui as semelhanças com Camacho. Flores é um treinador actualizado, muito mais próximo na sua cátedra de treino de Mourinho do que o seu fluente espanhol como indicador de proximidade de Camacho. Os primeiros treinos serão suficientes para fazer a demonstração dessa diferença.
Esta decisão marca também a separação de ideias entre Rui Costa e o presidente do Benfica. Quando Filipe Vieira recorreu a Camacho, fê-lo porque precisava, mais do que um treinador, de um amigo que pudesse oferecer o corpo às balas que a época traria e permitisse a Vieira esconder-se atrás dele. Foi o que aconteceu e Vieira demonstrou o seu amadorismo na gestão desportiva. Agora, Rui Costa confia em si próprio, no seu trabalho, arriscando mesmo o seu prestígio e traz um treinador de última geração em Espanha. Não foi contratar um pára-choques, pelo contrário, percebe-se que está disponível ele para defender o treinador e não o contrário, defender-se com o treinador. É a grande diferença com que os benfiquistas podem contar para a próxima época, entre Rui Costa e Luís Filipe Vieira.
De todo o modo, convém notar que Rui Costa fez bem em esperar pelo presidente do Benfica para fazer a apresentação do novo treinador. Porque demonstra respeito pelas hierarquias e foge, talvez deliberadamente, à estratégia de Filipe Vieira de auto-desresponsabilização de tudo o que vier a passar-se na próxima época. Especialmente se o Benfica adiar uma vez mais o regresso às vitórias. Acho que Rui Costa não podia deixar que isso acontecesse e assim todos ficam a perceber que o presidente do Benfica continua a ser Filipe Vieira e não Rui Costa. E no futuro, aconteça o que acontecer, ele, Filipe Vieira terá sempre de assumir as suas responsabilidades. Se o Benfica perder, é mais uma vez o seu projecto que perde, se o Benfica ganhar, ninguém pode esquecer que será uma vitória de Filipe Vieira, para juntar a outras do seu longo mandato no clube.
A apresentação de Quique Flores foi realizada no sábado e logo no domingo de manhã, pela fresca, o comentador Luís Freitas Lobo, na RTPN, demonstrou o que pode esperar o treinador espanhol se falhar qualquer coisa. De acordo com este comentador o Benfica aposta num treinador que ainda não venceu títulos como treinador – é um facto – e não num português, apenas porque Flores é espanhol. O problema para Freitas Lobo não é ser espanhol, é ser estrangeiro. Vindo de um comentador, de quem as pessoas esperam análises lúcidas e descomprometidas, acho esta ideia completamente desparafusada. Primeiro porque demonstra desconhecimento da história do Benfica. Quantos treinadores portugueses foram campeões pelo Benfica? Muito poucos. Quantos treinadores portugueses falharam no Benfica e ganharam noutros clubes portugueses? Exemplos mais recentes? Mourinho, Jesualdo e Fernando Santos. Mesmo Paulo Bento não teria nunca, no Benfica, a mesma tolerância que tem no Sporting. Não perceber isto é não perceber o alcance da decisão correctíssima de Rui Costa. Mas percebo, no entanto, uma certa coerência em Freitas Lobo, um dos comentadores que mais caricaturou o recente percurso de Camacho no Benfica, defendendo igualmente como contrapeso o trabalho realizado por Fernando Santos.
Deixa-me, no entanto, tranquilo, que Rui Costa apareça como director-desportivo do Benfica e Freitas Lobo como comentador. Acho que os benfiquistas se lamentariam muito mais do seu clube se fosse ao contrário. Freitas Lobo como director-desportivo do Benfica e Rui Costa comentador. Porque um director-desportivo do Benfica tem de conhecer o futebol com uma profundidade que vai muito para além das basculações, das pressões altas e do ajuntamento das linhas. É preciso, desde logo, conhecer a natureza do clube. E, no Benfica, actualmente só dois treinadores portugueses podiam escapar a essa fatalidade histórica de se considerar maligna a nacionalidade portuguesa para um treinador do clube. Seriam Carlos Queiroz, primeira opção de Rui Costa e Mourinho. E estes dois porque, muito para além de portugueses, são cidadãos do mundo. Imunes à pressão insuportável que qualquer treinador português enfrentaria no Benfica. E é isto que Quique Flores, não por ser espanhol mas por ser estrangeiro, não terá de enfrentar inicialmente. Um treinador português, dos que Freitas Lobo escolheria, chegaria ao Benfica trazendo desconfiança, Flores vai trazer expectativa. É nesta diferença que estará o tempo que o novo treinador do Benfica precisará para compor a sua ideia e organizar as suas ideias.













