quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Era Scolari e a falsa questão da renovação

Um dos vários argumentos para o eminente falhanço queirosiano (que nunca engloba a culpa própria ou a incompetência), é a ausência de renovação feita por Luiz Felipe Scolari ao longo dos seis anos que ocupou o cargo de seleccionador nacional.

Um seleccionador não é responsável, em primeira instância, pelo sucesso ou insucesso, competência ou incompetência dos jogadores e dos treinadores das equipas nacionais e dos seus escalões de formação. Qual é o papel e a responsabilidade de Scolari, ou de qualquer seleccionador português, pelo desenvolvimento do escalão juvenil do Benfica? Aqui é difícil atribuir responsabilidades ao seleccionador, mas é isso mesmo que Queiroz tem tentado fazer transparecer. No entanto, um seleccionador tem responsabilidade mais que directa nos escalões de formação das selecções jovens, onde não se podem apontar grandes feitos a Scolari, devido à sua quase despreocupação e demissão de responsabilidade, como naquele caso em que disse "o chefe das sub-21 sou eu!", antes de um Europeu de má memória.

Por isso mesmo, para verificar que o argumento da ausência de renovação da selecção na Era Scolari é falso, faço uma lista dos jogadores introduzidos por Felipão que conseguiram ganhar um posto na equipa de todos nós, ou que não o tendo ganho, tinham condições para tal. Divido a Era Scolari (num total de 61 jogadores utilizados, creio) em 3 períodos.

Do Mundial 2002 ao Euro 2004

Após o desaire no Mundial do Oriente, a selecção nacional apresentava-se aos olhos dos adeptos como "velha e cansada". A geração que tanto prometia parecia estar a acabar sem deixar uma marca importante no futebol sénior. A equipa herdada de António Oliveira continha um lote de jogadores que não andava muito longe disto: Baía, Nélson, Ricardo, Jorge Costa, Fernando Couto, Beto, Jorge Andrade, Abel Xavier, Caneira, Rui Jorge, Frechaut, Petit, Paulo Sousa, Paulo Bento, Figo, Capucho, Rui Costa, Hugo Viana, Pedro Barbosa, Sérgio Conceição, João Pinto, Pauleta, Nuno Gomes, Sá Pinto, Simão, Quim e Secretário.

Com a chegada de Scolari, deste lote de 27 jogadores, apenas 12 aguentaram a transição do Mundial do Oriente para o Euro-2004. Nestes dois anos, e fruto das boas campanhas europeias do FC Porto e do futebol atractivo do Benfica, vários jogadores foram lançados, dando novo sangue à selecção. Entre 2002 e 2004, Scolari promoveu várias chamadas, sendo as de maior destaque Moreira, Paulo Ferreira, Miguel, Nuno Valente, Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche, Tiago, Cristiano Ronaldo, Deco e Hélder Postiga. Onze jogadores! Em menos de dois anos! Se isto não é renovação é o quê? Ainda por cima tudo jogadores de qualidade inquestionável (tirando o Costinha, vá, que fez carreira com base numa ideia de super-jogador quando era um super-calhau).

Do Euro 2004 ao Mundial 2006

A primeira fase de renovação, de todas elas a mais difícil e arriscada, foi muito bem sucedida. Mas não bastava ficar por aqui: com um grupo novo, e preparando os novos ciclos, a selecção tinha de combinar duas vertentes: ganhar e renovar. Ambas foram muito bem conseguidas. Durante os amigáveis, fase de qualificação e Mundial de 2006, muitos jogadores de qualidade foram lançados, ou relançados, por Scolari. São casos disso Marco Caneira, Jorge Ribeiro, Ricardo Rocha, Fernando Meira, Manuel Fernandes, Hugo Viana e Hugo Almeida. Falamos de mais 7 jogadores. Deste grupo, Caneira, Meira e Hugo Viana já tinham sido convocados por outros seleccionadores, mas nunca tinham verdadeiramente jogado pela selecção, tendo feito apenas parte das convocatórias. Jorge Ribeiro e Ricardo Rocha, apesar de terem uma passagem efémera pelas quinas, não conseguiram dar continuidade às chamadas de Scolari não por falta de qualidade ou potencial, mas por terem escolhido rumos para as suas carreiras que os prejudicaram bastante (a saída do Benfica para o Tottenham no caso de defesa-central e a ida para a Rússia por parte do irmão de Maniche). Manuel Fernandes foi lançado, quem sabe, demasiado cedo, sendo demasiado jovem para se impor na equipa, apesar de eu manter a convicção de que é um jogador com um potencial e qualidade tremendas. Hugo Almeida, lançado neste tempo, não conseguiu afirmação imediata, derivado de haver outros pontas-de-lança com maior qualidade, casos de Pauleta e Nuno Gomes, mas começa agora a mostrar serviço, tendo já alinhado como titular em alguns jogos importantes, com Queiroz.

Do Mundial 2006 ao Euro 2008


Muita gente apontou este período como o mais difícil da Era Scolari. Foi-o, efectivamente. Já não havia o elã de anos anteriores. A selecção tinha perdido os verdadeiros líderes dentro de campo, Luís Figo, Rui Costa e Fernando Couto, ficando agora entregue a um conjunto de jogadores de grande qualidade como Simão, Nuno Gomes, Ronaldo, Ricardo e Ricardo Carvalho, mas sem o carisma dos anteriores. Contudo, é mais uma vez errado afirmar que neste período não houve renovação. Naquele período foram lançados Rui Patrício, Bosingwa, Pepe, Bruno Alves, Tonel, Miguel Veloso, Raul Meireles, Nani, Ricardo Quaresma, João Moutinho e Makukula. São mais 11 jogadores. Patrício, apesar de não ter jogado, ou te ter feito apenas um jogo, não sei ao certo, tem qualidade e pode muito bem vir a ser o futuro guarda-redes na baliza da selecção. Bosingwa, Pepe, Bruno Alves e Moutinho, com relativa facilidade, conquistaram o seu espaço, actuando como titulares em algumas ocasiões. Tonel e Makukula, por razões diferentes, não conseguiram impor-se: para Tonel havia demasiada competitividade no seu sector, enquanto para Makukula a perda da titularidade foi fundamental para a perda, também, do comboio dos escolhidos. Veloso e Meireles, foram conquistando o seu espaço (e ainda hoje o fazem) a pouco e pouco. Num sector onde, desde a saída de Petit, não houve ninguém a pegar de estaca, estes jogadores de Sporting e Porto, respectivamente, têm mostrado qualidade para poderem ser titulares. Por fim, Nani e Quaresma, que lançados como alternativas a Simão e Ronaldo, tiveram dificuldades em assumir-se como escolhas para o onze, devido à boa forma dos outros dois atletas, apesar de ser unânime que ambos têm qualidade.

Resumindo, nesta renovação scolariana, ao contrário do que Carlos Queiroz tenta escamotear, a selecção nacional ganhou cerca de 25 jogadores, ou seja, no período de seis anos, a selecção foi totalmente renovada por Scolari. Inegável.

Uma coisa é renovação. Outra coisa bem diferente disso é experimentar. Edinho, Brandão, Eliseu, entre outros, não são exemplos de renovação, mas sim de experiências, ainda por cima falhadas. Um seleccionador tem de saber trabalhar com o material que lhe dão, e isso não parece estar ao alcance de Queiroz. Tão grave como não conhecer as próprias limitações, é afirmar que Scolari não fez a dita renovação e propor a seguir que se naturalize todo o brasileiro que souber jogar à bola. E custa pensar que este foi o pai da formação, o pai da Geração d'Ouro.

6 comentários:

Bruno Venâncio disse...

JNF, eu costumo estar de acordo com a maioria dos posts que aqui apresentas, mas desta vez tenho de discordar (e vou escrever muito, desculpa lá a seca). Deves pensar "Lá vem o anti-Scolari" mas não é nada disso nem quero de forma alguma desculpar o Queiroz.

Mas a verdade é que Scolari, nesses 5 longos anos em que (t)reinou na selecção (sim, porque começou em fevereiro de 2003 e saiu em Junho de 2008) também fez muitas experiências, experimentou muito, e o núcleo duro de 19, 20 jogadores foi sempre o mesmo. O grupo deixado por António Oliveira depois do Mundial era mais ou menos esse que disseste. Depois Scolari chegou e no ano e 3 meses de que dispôs para preparar o Euro 2004, só disputando amigáveis, constituiu um núcleo duro composto por esses 12 jogadores que referiste, mais os 10 que depois referes também, que obviamente ainda não podiam ter sido chamados por Oliveira porque ainda não haviam dado nas vistas nessa altura. Falas de Moreira mas ele foi chamado apenas para ser 3º gr no Euro. Depois só voltou a ser chamado agora por Queiroz. Nunca foi aposta de Scolari. Se vires bem, do lote de Oliveira, os jogadores que saíram foram os que acabaram depois do Mundial 2002: Baía não existia para Scolari, assim como João Pinto. Nélson não era gr de selecção, Jorge Costa retirou-se da selecção, assim como Paulo Bento e Pedro Barbosa. Abel Xavier deixou de ser seleccionável, assim como Frechaut, Secretário, Capucho e Sá Pinto, pois as suas carreiras declinaram a partir daí. Paulo Sousa acabou a carreira. Caneira, Sérgio Conceição, Meira e Hugo Viana foram escolhas intermitentes de Scolari nesse período. Portanto, ele tinha obrigatoriamente de renovar a selecção. Nesses amigáveis ele experimentou também Boa Morte, Luís Loureiro, Rogério Matias, Silas, Quaresma, Ricardo Rocha, Pedro Mendes, Hugo Almeida e... Bruno Vale. Se isto não são experiências, não sei o que serão. E de ressalvar que ele o pôde fazer tranquilamente, pois eram apenas amigáveis.

No apuramento para o Mundial ele utilizou o núcleo duro + Jorge Ribeiro, Boa Morte, Alex, Caneira e Meira. Sendo que Caneira e Meira já eram apostas esporádicas antes, as suas novidades limitaram-se a 3 jogadores. Nos amigáveis, utilizou esporadicamente Quaresma, Manuel Fernandes, Moutinho, Rogério Matias, Ricardo Costa, Paulo Santos, João Alves e Hugo Almeida. Na fase final, a sua convocatória só teve 6 diferenças para a do Euro: Bruno Vale/Paulo Santos em troca com Moreira (lesionado); Meira no lugar do lesionado Jorge Andrade e Ricardo Costa em troca com Beto; Caneira no lugar do retirado Rui Jorge; Hugo Viana no lugar de Rui Costa; e Boa Morte no lugar de Couto (só levámos 3 centrais à Alemanha). Portanto, de 23 jogadores apenas 6 foram trocados, e pelas condicionantes que já enumerei. De outro modo, Jorge Andrade teria ido ao Mundial, Moreira também e os outros saíram porque se retiraram do futebol ou da selecção.

Para o Euro 2008 Scolari experimentou mais: estreou Bosingwa, Bruno Alves, Pepe, Tonel, Carlos Martins, Duda, Miguel Veloso, Meireles, Makukula, Nani e chamou ainda os já anteriormente utilizados Jorge Ribeiro, Ricardo Costa e Rocha, Moutinho, Manuel Fernandes, Hugo Almeida e Quaresma. Destas 17 novidades nos convocados, 10 foram ao Euro. E porquê? Além de Rui Patrício, que foi no lugar de Paulo Santos como 3º gr, Bosingwa foi porque se tornou o melhor lateral direito português e aproveitou o facto de Paulo Ferreira jogar na esquerda; Pepe foi no lugar de Ricardo Costa e Bruno Alves no lugar de Jorge Andrade, ainda lesionado; Jorge Ribeiro aproveitou o facto de não haver mais laterais esquerdos decentes (tirou o lugar a Caneira); Veloso, Meireles e Moutinho ascenderam face ao desaparecimento de Costinha, ao ostracismo de Maniche e à lesão de Hugo Viana; Quaresma entrou para o lugar do retirado Figo e Nani para o de Boa Morte; Hugo Almeida rendeu o retirado Pauleta.

Bruno Venâncio disse...

Como vês, comprova-se facilmente que Scolari também fazia muitas experiências, muitas experimentações, mas na hora da verdade o núcleo duro só se alterava por motivos de força maior. E com Queiroz vai ser igual. O seu núcleo duro são uns 18, 19 jogadores dos quais nunca abdica. É nos amigáveis que faz mais experiências. Agora está à rasca e convocou jogadores mais experientes a ver se consegue o apuramento. Acho bem. Neste momento já não há lugar a experiências e jogadores como Nuno Assis ou Pedro Mendes para mim poderiam perfeitamente ser titulares que não havia mal nenhum. Aliás, só podia fazer bem.

FlashGordo disse...

O Nuno Assis nunca poderá ser titular da selecção Portugesa....pura e simplesmente não tem qualidade para isso...

Anónimo disse...

A propósito de selecionadores, hoje o marca.com fala em negociações entre a fpf e o ex selecionador espanhol luis aragonês... já estão a contar em ficar por terra.

JNF disse...

Bruno,

Scolari fez muitas experiências, é verdade, mas não caiu no erro de Queiroz: se a experiência não resulta, então não se insiste nela! Quanto ao Moreira, só não foi mais vezes convocado simplesmente porque não jogou com regularidade no SLB, caso contrário, acredito que hoje seria o titular da selecção. Os outros foram efectivamente escolhas intermitente de Scolari, mas acabou por confirma-los como habituais escolhas.

Bruno Venâncio disse...

Queiroz também não caiu no erro de insistir: Gonçalo Brandão não mais voltou a jogar, Nélson também não, Eliseu idem, Edinho voltou agora a ser chamado porque não temos mais avançados (Postiga? Não. Makukula? Talvez, mas está a um nível muito semelhante). O resto da renovação tem cumprido. Eduardo, Rolando, Duda (ainda que com as suas limitações a defender, prefiro-o a Paulo Ferreira na esquerda), têm estado em bom plano. Eu acho que ele erra sim em insistir em jogadores que já jogavam antes (com Scolari) e que não estão, manifestamente, em forma neste momento, casos de Raul Meireles, Tiago, Moutinho, Deco, Simão e outros que por vezes aparecem a jogar sem qualidade actual para isso. Agora dizerem-me que o Nuno Assis não tem qualidade para a selecção? Por favor. Nuno Assis é só o melhor 10 português dos últimos anos, depois de Rui Costa. Deco não é português e quem tem havido melhor que Assis? Hugo Viana? Silas? Actualmente há Ruben Micael que não é tão bom ainda. E quanto a Pedro Mendes, é tão somente um dos melhores médios portugueses dos últimos largos anos e foi negligenciado anos a fio por Scolari e por Queiroz também.