segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Faça-se Luz sobre o Celtic

É tempo de Champions League. O Benfica estreia-se na edição deste ano da prova raínha de clubes a nível europeu frente a um velho conhecido, o Celtic Football Club. Como de costume, em jogos internacionais, realizamos a habitual crónica "Faça-se Luz", mas desta vez com algumas novidades. Com a colaboração do Phant, do blog Chama Gloriosa, foi realizada uma análise táctica detalhada com base na observação de vários jogos dos escoceses. Se o feedback for positivo, será para continuar.


Fundação, Willie Maley e Jimmy McGrory


Apesar da história de sucesso que todos reconhecemos ao Celtic, as origens deste clube são humildes e prendem-se com causas sociais. A ideia original partiu de um pároco irlandês, o padre Walfrid, residente em Glasgow, Escócia, e consistia numa angariação de fundos para financiar uma instituição de caridade que tinha como objectivo diminuir os índices de pobreza em Glasgow. Walfrid via no clube uma forma de angariar dinheiro para questões de solidariedade social, à semelhança do que acontecia com outros emblemas escoceses, como o Hibernian, por exemplo e denominou-o de “Celtic” de forma a relembrar as origens escocesas mas também irlandesas do clube. Mas houve quem visse no Celtic mais que uma instituição de caridade e quiseram torná-lo num dos maiores clubes do Reino Unido: John Glass, um homem do ramo da construção, investiu algum dinheiro e contratou, à revelia do padre Walfrid, 8 jogadores do Hibernian, um dos melhores clubes à data, dando o mote para aquilo que o Celtic se tornaria. Glass torna-se presidente do clube e contrata, em 1897, Willie Maley para treinador principal, cargo que ocuparia até 1940. Sim, não há engano nenhum: Maley treinou os católicos durante 43 anos consecutivos, durante os quais venceu 16 ligas e 14 taças da Escócia, menos um troféu que os arqui-rivais da cidade e do país, o Rangers. Mas a repartição de troféus entre católicos e protestantes terminaria brevemente. Entre 1945 e 1965, período em que o Celtic teve como treinador Jimmy McGrory, os verde-e-brancos venceram o campeonato em apenas uma ocasião, contra dez dos rivais. O Rangers cavava desta forma um fosso de qualidade que os distanciava claramente do Celtic.

Glória pela mão de Jock Stein


John “Jock” Stein foi apenas o quarto treinador do Celtic em quase 80 anos de história. Stein fora jogador dos católicos num período de domínio do rival Rangers e tornava-se o primeiro treinador protestante a orientar a equipa. O percurso enquanto treinador do Celtic foi todo ele recheado de sucesso. Sob o seu comando, a equipa ganhou o campeonato por nove vezes consecutivas, algo que só seria igualado pelo Rangers na década de 90, e tornou o Celtic na primeira equipa britância (e única escocesa até hoje) a ganhar a Taça dos Campeões Europeus (agora denominada de Liga dos Campeões), feito curiosamente alcançado em Lisboa, onde derrotaram o Inter de Helenio Herrera, no ano de 1967. Os Lisbon Lions, nome pelo qual são conhecidos os heróis desta conquista europeia, voltariam a marcar presença na final da TCE em 1970, após eliminarem o Benfica no desempate por… moeda ao ar, mas saíram derrotados às mãos do Feyenoord. Stein ganhou enorme reputação sendo considerado um dos melhores treinadores escoceses de sempre, mas acabou por sair do clube em 1978, depois de ter ganho apenas um dos quatro campeonatos anteriores. Foi, contudo, autorizado a escolher o seu sucessor, indicando para o cargo o capitão da equipa vencedora da TCE – Billy McNeill. Sob orientação de McNeill, o Celtic voltou a dominar internamente, com três campeonatos ganhos e dois segundos lugares durante os cinco anos de reinado do ex-capitão, que acabaria por sair devido a sucessivos desacordos com a direcção do clube.


Declínio, aparecimento do Aberdeen e o regresso do Rangers

Depois desta Era de sucesso, o Celtic enfrentou um período de declínio que acaba sempre por existir em quase todas as grandes equipas. Com a bipolarização do futebol escocês cada vez mais evidente, o Rangers aproveitou-se e igualou o feito do Celtic de Stein ao ganhar nove campeonatos consecutivos, entre 1989 e 1997. O Celtic perdeu identidade e perdeu também algum protagonismo para o Aberdeen, que se superiorizou aos verdes durante alguns anos, como fruto do trabalho lançado por um tal de Alex Ferguson. O regresso de McNeill após a curta passagem de Davie Hay daria o único título de campeão aos católicos em 10 anos. A ele seguiram-se vários treinadores, incluindo o primeiro estrangeiro, o irlandês Liam Brady, e o holandês Wim Jansen, que quebrou a senda de títulos dos protestantes ao ganhar o campeonato em 1998. Contudo, esse foi um sucesso efémero até à chegada do homem que voltaria a colocar o Celtic na rota do sucesso.

Um futebol diferente por Martin O’Neill e Gordon Strachan


Esse homem foi Martin O’Neill. Apesar de o Celtic ter sido sempre uma equipa de cariz marcadamente ofensivo, o norte-irlandês, que havia vencido a TCE sob orientação do mítico Brian Clough ao serviço do Nottingham Forrest, deu um toque de qualidade com a integração de jogadores anormalmente bons para a Liga Escocesa: o avançado Chris Sutton, os médios Neil Lennon e Didier Agathe e o defesa Joos Valgaeren juntaram-se a grandes atletas como Henrik Larsson, John Hartson, Petrov e Mjallby para mudarem definitivamente o domínio do futebol escocês a favor do Celtic. Com O’Neill, os católicos venceram três de cinco campeonatos, três taças e uma taça da liga, alcançando ainda uma final da UEFA Cup que perderiam, em Sevilla, para o Porto de Mourinho. Gordon Strachan sucedeu-lhe e conseguiu fazer uma transição tranquila de um plantel envelhecido para um conjunto de jogadores mais jovens e ainda assim capazes de assegurar um tricampeonato entre 2006 e 2008. O Celtic teve boas performances na Champions League, chegando inclusive a obrigar o AC Milan a ir a prolongamento nos oitavos-de-final em 2008.






O que dizem os Bhoys?

À semelhança do que se faz noutros países, nomeadamente em Inglaterra, com o famoso Spyin' Kop dos adeptos do Liverpool, decidimos também recolher opiniões entre os adeptos do Celtic FC. Agradecemos a disponibilidade do Finbar Gibbons, Damo Rady, Alex Pocrnick, Kieran Walker, Johnny Organ, Tom Seungmin Lee e do Sean McConeghy, todos membros do grupo de adeptos do Celtic FC no Facebook.

1. Quais as vossas expectativas para a época 2012/2013?

Finbar Gibbons (FG): Espero uma vitória na Liga e tenho alguma esperança em que consigamos vencer as duas taças domésticas. Se alcançarmos os oitavos-de-final da Champions League, será um enorme sucesso.

Damo Rady (DR): Conquistar a Liga, o objectivo na Liga dos Campões já foi alcançado.

Alex Pocrnick (AP): Tudo o que não passe por ganhar a “tripleta” (Liga, Taça e Taça da Liga) será considerado um falhanço, é importante referi-lo. Continuar nas provas europeias para lá do Natal, será extremamente positivo e até algo realista.

2. Acreditam que vai ser mais fácil revalidar o título de campeão na Scottish Premier League sem a oposição do Glasgow Rangers?

AP: Com a folha salarial do clube, relativamente ao resto dos adversários na Liga, será um grande embaraço se não conseguirmos ganhar a Liga. Não há um único clube na Escócia que consiga competir com o nosso poder financeiro. Somos os favoritos na corrida ao título, e sim, é muito mais fácil sem o Rangers.

Kieran Walker (KW): Sim, a complacência pode prejudicar-nos.

Johnny Organ (JO): Sim, mas a Liga vai ser disputada, com as equipas a tentarem não ceder muitos golos.

3. Conseguem dar uma explicação para os fracos resultados obtidos nas competições europeias nos últimos quatro anos?

KW: Downsizing e ausência de uma política de transferências a longo prazo sob o comando de Tony Mowbray (ex-treinador).

Tom Seungmin Lee (TSL): Nos últimos dois anos, Neil Lennon tem sido o nosso treinador, mas ele precisa de amadurecer ainda mais como treinador de futebol. Também é o momento de deixar a sua equipa estabelecer-se e crescer, até porque o plantel é bastante novo.

Sean McConeghy (SMC): A História ensinou-nos a esperar sermos esmagados nos jogos for a. A equipa entra nos jogos com essa mentalidade.

4. O que é que levou a que o Celtic ficasse progressivamente mais fraco com o passar dos anos, nomeadamente em comparação com a equipa que tinham entre 2002 e 2007? Por que motivo não conseguiram substituir jogadores como Henrik Larsson, Neil Lennon ou Paul Lambert, entre outros?

FG: É simples, não temos dinheiro para comprar jogadores que nos ajudem a ir longe na Europa. Como não há dinheiro no futebol escocês, o melhor que podemos fazer passa por contratar jogadores jovens e desconhecidos de ligas estrangeiras, como Beram Kayal, Victor Wanyama e Emilio Izaguirre.

TSL: São jogadores que não são fáceis de substituir. Aquando da saída de Gordon Strachan [treinador entre 2005 e 2009], perdemos o fio à meada, por isso temos de esperar. Mas essa altura chegou agora.

AP: Os valores das transferências e dos salários sofreram uma enorme inflação na era pós-Abramovich, e esse tipo de “injecção financeira” simplesmente não acontecerá no futebol escocês. Não podemos competir numa escala continental com o mercado actual. Também não ajuda que a nossa Liga não seja um destino atractivo para os jogadores. Campeonatos como a Primeira Liga Portuguesa oferecem uma transição cultural razoavelmente suave para os jogadores sul-americanos, enquanto que a Primeira Liga Russa oferece salários exorbitantes. A Scottish Premier League não oferece nenhum desses benefícios.

5. Qual foi o ponto mais alto da História do Celtic? E qual a pessoa mais importante em toda a História do clube?

DR: O facto de ser a primeira equipa britânica a conquistar a Taça dos Campeões Europeus. Todos os adeptos.

TSL: A vitória na Taça dos Campeões Europeus em 1967 e Jock Stein.

KW: Os êxitos de 1967 e 2003. A equipa de 2004 também poderia ter chegado longe na UEFA Cup se tivesse saído da fase de grupos da Champions League. Padre Walfrid, Jock Stein, Tommy Burns, Fergus McCann.

6. Estão satisfeitos com o resultado do sorteio da UEFA Champions League?

SMC: Sim, estou ansioso para ver os Bhoys [alcunha do Celtic Football Club] em quatro dos maiores palcos europeus.

KW: Não, queria que nos tivessem calhado equipas com as quais não tivéssemos jogado no passado.

FG: Sim e não. Podemos sair do grupo com um bom resultado, mas será difícil uma vez que temos, de longe, o menor orçamento das quarto equipas.

7. O que sabem sobre o futebol português, nomeadamente sobre o SL Benfica?

AP: Enorme clube, um dos três grandes em Portugal, conhecido por formar consistentemente equipas com uma capacidade incrível para se bater com os melhores da Europa apesar dos constrangimentos do mercado. Eusébio é uma lenda. Estive no amigável Celtic-Benfica em Toronto há um par de épocas atrás e fiquei deveras impressionado com o apoio dos adeptos encarnados lá.

JO: Uma equipa enorme, com muita História e jogadores de qualidade.

FG: O Benfica tem uma grande falange de apoio, uma história rica e bons adeptos. Encontrei alguns nos jogos disputados no Celtic Park e pareceram-me um grupo de pessoas agradável e amigável.

8. Se pudessem contratar um jogador da nossa equipa, qual escolheriam?

DR: Cardozo.

AP: Antes do fecho do Mercado, teria dito Axel Witsel, confesso. Provavelmente Óscar Cardozo, é um monstro enquanto jogador de área e dominaria se jogasse na Escócia.

JO: Cardozo, mas também poderia dizer Luisão.

9. Quem consideram ser o vosso melhor jogador? E o pior (de entre os que provavelmente serão titulares)?

SMC: Melhor: Mulgrew; Pior: Wilson

JO: Com base na forma actual, diria que Commons ou Wanyama são os melhores, Lustig o mais fraco, mas Matthews jogará provavelmente no seu lugar.

KW: Wanyama e Ledley são os melhores. Os defesas laterais podem ser algo naives e um pouco descuidados, mas é um onze relativamente forte se tudo correr bem.

10. Qual será o onze inicial com que o Celtic vai alinhar contra o SL Benfica?

SMC: Forster; Matthews, Izaguirre, Wilson, Mulgrew; McCourt, Ledley, Brown, Wanyama; Watt, Hooper.

FG: Forster, Izaguirre, Mulgrew, Rogne/Ambrose, Matthews, Commons, Kayal, Ledley, Brown, Hooper, Samaras. O nosso onze pode não ser este, temos jogadores novos que poderão ser titulares.

AP: Gostaria que onze fosse qualquer coisa como isto: Forster; Izzy, Mulgrew, Rogne, Matthews; Ledley, Brown, Commons; Forrest, Hooper, Samaras (4-3-3).

11.Que prognósticos fazem para ambos os jogos contra nós?

DR: Celtic 2-1 Benfica; Benfica 1-0 Celtic

TSL: Celtic 2-1 Benfica; Benfica 0-0 Celtic

JO: Ambas as equipas deverão vencer em casa, mas de forma bastante difícil.

14 comentários:

Meddler disse...

És grande filhote! Grande análise.

Miguel disse...

Post de grande qualidade. A vitória neste jogo é mais importante, do que parece à 1.ª vista, para garantir a passagem à segunda fase da LC.

Espero que a equipa entre com essa mentalidade, e que não se contente com o empate.

Um empate seria sim um bom resultado em Moscovo e um resultado histórico em Barcelona.

Tó-zé disse...

Epah, vocês superam-se! É o blog mais completo que sigo. Continuem com o excelente trabalho :)

Anónimo disse...

Muito bom trabalho. Parabéns!

EPluribusUnum disse...

Brilhante análise, só podia ter a colaboração do Phant, sempre nos habituou a excelentes análises quer no Chama quer noutros sites, como no SB.

Anónimo disse...

Será que nas equipas técnicas (em geral, eno Benfica em particular) haja quem faça este trabalho tão bem?
Parabens ao Eterno e ao Chama Gloriosa.

Pedro Vieira, Braga

B Cool disse...

muito interessante, apenas lamento que quando maximizasse a análise ela ficasse cortada. Ah e as primeiras fotos não aparecem. De resto excelente.

fica uma dúvida para o Phant, são assim tão bons, ou os adversários deles fazem-nos parecer melhores ?

Germano Bettencourt disse...

A minha "crónica" favorita. Espero que faças para todos os jogos Europeus.

Abraço

Bicadas disse...

Fantástico. Estou de boca aberta.

Cumprimentos

José Ferreira disse...

Um espectáculo! Assim vale a pena!

Anónimo disse...

BRUTAL!
vale 100 x mais ler este blog, que comprar aquelas toalhas de papel higiénico a 0,85€!

aalto

Yupie disse...

Grande trabalho!

os meus parabens pela excelente análise.

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=hK12JmnaKSI
Deco confessando o arremesso da chuteira a Paraty

Anónimo disse...

Excelente artigo JNF !