
Este não é um post escrito de cabeça quente após uma derrota de pré-época. Os resultados dos jogos das pré-temporadas pouco ou nada me dizem. Preocupo-me mais com o entrosamento entre jogadores, rotinas de jogo e ideias em campo. E é isto que me apoquenta, e muito, neste momento. O Benfica de Jorge Jesus não faz ideia do que é defender.
Começo por dizer que acho, muito sinceramente, que temos um guarda-redes à altura dos que os rivais têm (Hélton e Patrício) e defesas centrais e direito melhores que os dos adversários. Nem posso falar em defesa esquerdo, porque não posso comparar os dos rivais com... zero. E, curiosamente, ou talvez não, somos, dos três grandes, o que pior defende. Mas de longe. E as razões para tal explicam-se em duas palavras: Jorge Jesus. Não sou um catedrático em futebol, não sou um especialista nem um estudioso do jogo, mas há coisas que são por demais evidentes e facilmente descodificadas seja por um engenheiro ou por um pedreiro. Jorge Jesus tem três anos de Benfica e a minha cabeça tem três anos de Jorge Jesus. Percebe-se o que passa e, sobretudo, o que não passa por aquela cabeça. E é isto que me preocupa. Bastante.
Em três anos de Benfica, Jesus descurou completamente a questão defensiva. Se no primeiro ano ainda havia disfarce (chamado Ramires), no segundo as debilidades ficaram visíveis a olho nu, num esquema onde não actuava nenhum médio de transição (box-to-box) e onde a equipa atacava e defendia em dois blocos perfeitamente individualizáveis. Quantas não foram as vezes em que o Benfica foi apanhado no contra-golpe com um lateral, Luisão e David Luiz/Jardel a defender, Javi a recuperar em esforço e o outro lateral na zona de ataque? No terceiro ano, a mesma situação. Witsel é um jogador soberbo, muito bom a ocupar o espaço, mas sem a mesma disponibilidade física de Ramires, o que nos valeu alguns dissabores. Aliado ao facto de Jesus achar que Maxi Pereira não deve defender, o resultado só poderia ser aquele. Temos um problema que só se resolve de duas maneiras: ou o treinador muda, ou se muda o treinador.
Temo seriamente, para não dizer que tenho quase a certeza, que o se viu hoje com o PSV Eindhoven se venha a repetir por várias vezes esta época. Equipa perdida no espaço defensivo, dois blocos claramente partidos, um de defesa e outro de ataque, espaços atrás das costas dos laterais, incapacidade em suster o jogo em profundidade do adversário, desequilíbrios nas faixas do terreno de jogo com os defesas a serem deixados em situações de 2x1 inúmeras vezes, equipa sempre a olhar para a bola e despreocupada com as movimentações dos adversários, terríveis leituras defensivas que revelam falta de estudo na forma como o Benfica defende as bolas paradas e por aí adiante. A equipa não sabe defender. O Benfica treme quando o adversário tem a bola. Como é que um "mestre da táctica" não sabe defender? Qual mestre? E qual táctica? Só se for do 5-buraco-5 suicida. Jesus não tem competência para mais. Se reconhecesse isso, ainda poderíamos ter hipóteses, mas, pior que burro, é incorrigível. Não aprende com os erros. Nem quer. E as adaptações que tenta fazer são a prova provada da loucura. Como acha que não precisa de laterais suplentes, ora aparece Airton, Witsel, Miguel Vítor, Djaló, Melgarejo, quem lhe apetecer. Amanhã será Nolito (ainda hoje criticado pelo mestre Jesus), depois Bruno César. Com sorte não será preciso recorrer a Cardozo.
E mesmo na pré-época acontecem coisas que nos parecem impensáveis: a começar pelo voto de desconfiança que deu a Miguel Vítor e a Jardel, que jogaram apenas 45 minutos em cinco jogos, passando pela indefinição da posição de defesa esquerdo, lacuna já identificada por todos os adeptos desde Janeiro e terminando na crónica questão da transição ataque-defesa e defesa organizada. O que se faz na pré-época tem consequências no decorrer da temporada. É que a jogar desta forma tresloucada, as probabilidades de levar mais uma manita do Porto são reais. Só para não falar na perda de campeonatos, especialidade da casa. Mas quanto a isso não há problema, culpa-se o árbitro, naquela atitude típica de varrer o lixo para debaixo do tapete. Ainda hoje foi aquele polaco maldito.
"Os ataques ganham jogos, as defesas campeonatos". Ver o Benfica de Jorge Jesus atacar é um regalo para os olhos. Ver o Benfica de Jorge Jesus defender é... não é. Porque o Benfica de Jesus simplesmente não sabe defender. E já alguém viu uma equipa que não sabe defender ganhar uma prova de regularidade?