Não simpatizo com as claques. Já o tinha dito, ou, pelo menos, dado a entender aqui no blog por mais que uma vez. No entanto, não quero com isto dizer que não reconheço o seu papel no apoio às equipas, nomeadamente no futebol. E quando se fala em futebol, diz-se, claro, Benfica. É precisamente sobre as claques do Benfica que versa este post.

Nascidos em 1982, fruto da união de um grupo de adeptos do 2º anel do velhinho Estádio da Luz, os Diabos Vermelhos foram a 1ª claque organizada do Sport Lisboa e Benfica, a segunda a nível nacional (a Juve Leo é a mais antiga). Os seus membros eram, maioritariamente, jovens, sendo o factor "novidade" fundamental para a formação e crescimento do grupo organizado. Localizados na parte norte do antigo Estádio, os Diabos foram, durante 10 anos, e a par do terceiro anel, a grande força de apoio dos jogadores do Benfica. Contudo, e numa altura em que a claque gozava de privilégios hoje não vistos, deu-se uma cisão no grupo que motivou a formação de uma nova claque, no topo sul do Estádio. Este novo grupo quis adoptar o nome da claque original, mas, estando este uma vez registado, ficaram "sem nome", daí a origem do epíteto No Name Boys. Com a ascensão deste novo grupo, deu-se o princípio da queda dos Diabos, que em determinada altura chegaram a ter menos de 100 sócios. No entanto, com o passar dos anos e entrada no novo século, deu-se um maior equilíbrio entre as claques, pese embora o maior apoio, ainda hoje, dos No Name. Ainda neste último jogo do Benfica, ao olhar para a esquerda vi centenas de adeptos com bandeiras à Benfica (finalmente!) e faixas de apoio com o lema do falecido Gullit, "Sempre Presentes"; ao olhar para a direita, mão vejo senão menos que 30 adeptos, esforçados, mas sem a força de outros tempos. No Estádio da Luz, os Diabos Vermelhos de hoje são uma amostra daquilo que foram. "Poucos, mas bons?" Sim, são bons, mas em número não chegam.
No entanto, para além dos tifos (coreografias), cânticos e faixas, as claques são conhecidas pelo lado da selvajaria. É frequente ouvirmos falar de confrontos planeados, tráfico de droga e armas, assaltos a gasolineiras e ligações à extrema-direita, entre tantos outros problemas. No Benfica, as claques não são excepção. O caso da morte de Rui Mendes, na final da Taça de Portugal de 1996 é um exemplo disso mesmo. Selvajaria. Não quero com isto dizer que todos os membros da claque são uns "animais", mas basta haver 10 que o sejam para haver 100 que os sigam. É assim mesmo. Há tempos, em Espanha, um jornalista com o pseudónimo de Antonio Salas infiltrou-se na claque do Real Madrid, Ultras Sur, onde permaneceu praticamente um ano, tendo saído desta assim que pôde. Após a saída, escreveu o livro Diario de un Skin, onde fala do tráfico de droga, dos combates planeados e ainda das ligações neonazis com as claques Brigadas Blanquiazules e Irriducibili, do Espanyol de Barcelona e SS Lazio, respectivamente.

Claro que os Diabos Vermelhos e os No Name Boys não são tão radicais como estas claques de Real, Espanyol e Lazio. Na Luz ou fora dela, no estádio ou nos pavilhões, as nossas claques desempenham o seu papel de apoio ao clube e aos jogadores, cantando, gritando, empurrando o Benfica à vitória. Nos últimos 5 anos, são menos graves e menos frequentes os acidentes com as nossas claques. Assim de repente, lembro-me de poucos episódios tristes: quando adeptos dos No Name tentaram subir do piso 0 ao piso 1 para agredir um adepto que lhes tinha puxado uma bandeira, isto após alguém da claque ter passado uns bons 20 minutos a exibir a bandeira, tapando a vista ao adepto; o caso das pedras na Academia de Alcochete, apesar de a culpa não ser exclusivamente da nossa claque; e ainda a história de um autocarro ardido, apesar de não se saber quem o fez, as suspeitas recaíram, claro, nos membros das claques. Ganham a fama...
Posto isto, o que fazer? Acabar com as claques? Há uns tempos, aqui no
blog, um dos nossos habituais leitores, não me lembro se o Velho Estilo, o Do Sul, ou o Tiago No Name, disse quem sem eles, o Estádio da Luz parecia uma missa. Em parte, é bem verdade. Eu, por exemplo, não compreendo como é que muitos sócios não se levantam para cantar o hino do clube, argumentando que "o hino é para ser ouvido, não para ser cantado". Outra coisa que não entendo bem é a história da legalização das claques. E não entendo pelo seguinte: os dirigentes sabem quem lá vai, uma vez que as entradas são feitas com o cartão de sócio (e parto do princípio que os membros das claques são sócios); os adeptos, se não têm nada a temer, também não deveriam ter problemas em registarem-se. É normal que não queiram sentir-se controlados. Menos normal é querem ser ilegais à força, exibindo um pano com a inscrição "Sou ilegal e isso me envaidece". Ambas as partes hão-de ter as suas razões, mas já agora, gostaria de saber quais são.

Mas como dizia no parágrafo anterior, os jogos sem as claques seriam bem diferentes. Para melhor ou para pior, fica ao critério de cada um. Há quem diga que estaríamos na "missa", opinião de que partilho, mas se formos a olhar para o exemplo inglês, as coisas mudam de figura. Desde a extinção das claques inglesas que o futebol britânico passou a ser bem melhor. Mais que um jogo, é um espectáculo. Ouvir sócios ou simples adeptos gritarem "Glory, Glory Man United", ou entoarem o "You'll never walk alone", esteja o Liverpool a ganhar ou a perder, é simplesmente fantástico. Em Inglaterra, mesmo sem claques, penso que é unânime entre nós, benfiquistas, que estão lá os melhores adeptos do Mundo, que fazem da Premier League a melhor liga europeia. É uma questão de mentalidades: em Portugal, apoia-se a equipa quando ganha, mas sempre baixinho; em Inglaterra, canta-se e apoia-se do início ao fim, independentemente do resultado exibido no marcador. Estádios vazios por cá, estádios cheios por lá. É essa a diferença.
Acho difícil que tal cenário se verifique no Benfica, e por extensão em Portugal, mas seria certamente muito bonito. Para além da falta de qualidade do nosso campeonato, há o preço exorbitante dos bilhetes. Algum dia o Estádio Municipal de Leiria, com lugar para 30.000 espectadores ficará lotado num escaldante U. Leiria x Naval, com bilhetes com um preço médio de 15 euros? Nunca, meus caros, nunca. Mas já houve melhores tempos, mesmo por cá. Hoje em dia, em jogos para o campeonato, o Estádio da Luz enche por duas ocasiões: recepção a Sporting e FC Porto. Fora estes, as boas assistências verificam-se, geralmente, com o Vitória SC e com o Boavista, não esquecendo a primeira e última jornadas. Fora isso, raramente são atingidas marcas acima dos 40.000 lugares ocupados. Noutros tempos, como dizia, o Estádio enchia, ou andava perto disso, em quase todos os jogos. A força, sim, aquela responsável pelos "15 minutos à Benfica", não vinha das claques, que não existiam, mas sim do mítico 3º anel, pulmão do Benfica dos anos 50, 60, 70 e 80. Por apenas uma vez, na nova Luz, vi esse mesmo espírito, num infernal Benfica x Manchester United de finais de 2005, com golos de Geovanni e Beto. Nem com Porto, Sporting, Barcelona, Liverpool, Inter ou outros grandes clubes que defrontámos em jogos oficiais, se verificou tamanho Inferno, como foi esse jogo de Dezembro de 2005. Dantes, era regra, hoje, é excepção.

Por mim, o futebol não teria claques. Mas para isso acontecer, era preciso que, dentro do Estádio, todos os adeptos cantassem e apoiassem os seus clubes como as claques, ou os adeptos ingleses, fazem. O grande problema das claques é extra-futebol. Fora dos estádios.
Já agora, e aproveitando o facto de ter leitores dos Diabos e dos No Name, deixo-vos as seguintes questões, à espera de resposta. Por que é que os Diabos continuam tão afastados do Estádio da Luz? Por que é que os No Name mudaram radicalmente as bandeiras, para apenas bandeiras com símbolos do Benfica?
Por fim, uma sugestão para as nossas claques: parecendo que não, são muitos os Diabos e os No Name de norte a sul do país. Por isso, que tal um pouco mais de organização para marcarem presença com maior frequência nos pavilhões onde as modalidades do Benfica jogam, nomeadamente o pavilhão da Luz. Não foi a primeira nem será a última vez que vi jogos no nosso pavilhão onde não estava presente ninguém de uma claque. Como disse, anteriormente, não sou a favor das claques, mas este sentimento de que sem elas, o futebol não era a mesma coisa é ambíguo, sei disso bem. É estranho, mas é assim.
P.S. O que é feito de uma claque de apoio ao nosso Hóquei em Patins que surgiu há dois anos ou no ano passado (já não me lembro bem)? Já acabou?