Segunda jornada da Liga dos Campeões e eis que o Benfica recebe o todo-poderoso Barcelona. Sem mais demoras, eis a crónica "Faça-se Luz".
Fundação, Guerra e Era pré- Camp
Nou

Fundado em 1899 por um conjunto
de futebolistas espanhóis, suíços e ingleses liderados por Joan Gamper (suíço),
o FC Barcelona viveu períodos de instabilidade desportiva e financeira nos seus
primeiros anos. As dívidas, as constantes mudanças de estádio e até mesmo
alguns maus resultados foram intercalados com sucessos e troféus conquistados
nos primórdios de um futebol espanhol muito rudimentar. A profissionalização
dos catalães chegou apenas em 1926, mas para azar do sucesso desportivo do
clube, a Guerra Civil Espanhola interpôs-se e a política assumiu um papel
primordial sobre o futebol. Houve jogadores a alistarem-se para a guerra,
outros pediram asilo aquando de visitas ao estrangeiro e até houve repressões
políticas nos jogos dos catalães. Com o fim da guerra, vieram os anos de
recuperação, nomeadamente o final da década de 40 e início da de 50,
conquistando quatro campeonatos em seis anos, mas o sucesso foi uma efeméride.
Na conclusão do período pré- Camp Nou, o Barça teria de assistir ao sucesso do
Real Madrid, que conquistaria a Taça dos Campeões Europeus por 5 épocas
consecutivas. Melhores dias viriam.
Club Fútbol Barcelona

Sob orientação do mítico Helenio
Herrera e contando com uma troika de craques
húngaros composta por Kubala, Kocsis e Czibor, o Barcelona conquista dois
campeonatos (1959 e 1960), uma Taça (1959) e uma Taça das Cidades com Feira, a
percursora da Taça UEFA (1960), chegando também à final da Taça dos Campeões
Europeus em 1961 após derrotar o arqui-rival Real Madrid nas meias-finais,
perdendo a final para o Benfica num jogo onde, rezam as crónicas, os catalães
foram superiores e muito infelizes. O futebol é assim, o azar de uns é a sorte
de outros. E enquanto este triunfo serviu para o Benfica cimentar um domínio
absoluto no futebol português, a derrota do Barça seria o ponto de partida para
o período mais pobre a nível desportivo do clube. Nos catorze anos subsequentes,
os catalães não voltariam a ganhar o campeonato, polvilhando o seu currículo
com três Copas do Rey, uma Taça das Cidades com Feira e nada mais. O Real
Madrid tomara conta do futebol espanhol nos anos de Franco, conquistando nove
campeonatos nesse período entre outros títulos.
Cruyff jogador, Nuñez presidente,
Cruyff treinador

Com o fim da ditadura espanhola
do general Franco, o Barça iniciou um período de crescimento sem precedentes na
sua História. Com a queda do general, o craque holandês Johan Cruyff ingressa
nos blaugrana e devolve os catalães aos títulos, conquistando o campeonato
catorze anos depois, numa caminhada que envolveu uma manita dada no Bernabéu. Sol de pouca dura, no entanto, uma vez que
o Barça só voltaria a ganhar o campeonato em 1985. Entretanto dar-se-iam as
primeiras eleições do clube e que levaram Josep Lluís Nuñez ao topo da
estrutura catalã, iniciando um reinado de 22 anos que só terminaria em 2000.
Amado por uns, odiado por outros, o começo da Era Nuñez foi titubeante, com
dificuldade em alcançar troféus nacionais de modo regular. Só no sétimo ano de
presidência, já depois de duas Copas do Rey, uma Supercopa e duas Taças dos
Vencedores das Taças, é que o Barça almeja o tão desejado campeonato. Nuñez
deixou a sua marca bem vincada em Camp Nou, mostrando com clareza que acima dos
jogadores estava sempre o clube. Contratou craques, mas rejeitou sempre pagar
salários que considerava exorbitantes, deixando-os sair sem perder qualidade e
competitividade. Assim foi com Maradona (o Barça ganharia o primeiro campeonato
em onze anos imediatamente após a saída de Diego Armando), Romário e Ronaldo
(sucedendo-se o mesmo fenómeno que ocorrera com a saída de Maradona), entre
muitos outros. Concomitantemente com esta medida, Nuñez dá o pontapé de saída
para aquele que seria o maior e melhor investimento feito pelo Barça a longo
prazo: a sua cantera. Inaugura La Masia em 1979 e enceta uma luta que venceria
contra radicais de extrema-esquerda e direita das claques azuis-e-vermelhas.
Nuñez vencia fora do campo e preparava o Barça para vencer dentro dele. E esse
ciclo ganhador chegaria finalmente com a ajuda do homem que, dentro de campo,
enquanto jogador, devolveu o Barça aos títulos: Cruyff. O holandês assume a
batuta da equipa em 1988 e monta uma equipa que passaria a ser merecidamente
conhecida por Dream Team. Nela
alinhavam Zubizarreta, Romário, Laudrup, Koeman, Guardiola, Bakero,
Begiristain, Stoichkov, entre outros. Começa devagarinho, conquistando a Copa
del Rey uma Taça das Taças, para depois, entre 1991 e 1994 ganhar quatro
campeonatos de seguida, um record na história do clube e uma resposta ao tetra
vencido pelo Real nos quatros anos anteriores. Curiosamente, em três dessas
conquistas, o Barça partiu para a última jornada como segundo classificado,
beneficiando de derrotas do Real Madrid nas Canárias em 1992 e 1993 e do empate
caseiro do Deportivo (fruto de um penalty falhado no último minuto) contra o
Valência em 1994 para ganhar essas Ligas. Impressionante. E a este fabuloso
palmarés, Cruyff deu ainda a primeira Taça dos Campeões Europeus ao Barça
graças à vitória sobre a Sampdoria em 1992, com golo de Koeman, perdendo ainda
para o Milan a final de 1994. Cruyff sairia em 1996 depois de duas épocas sem
nada ganhar, sendo substituído por Bobby Robson, que ganha em 1997 tudo à excepção
do campeonato. Mas Robson não era visto como solução a longo prazo e o sonho
holandês de Nuñez mantinha-se: queria Van Gaal, treinador que levara o Ajax à
conquista de três campeonatos, uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões com uma
equipa recheada de jovens em seis anos. Van Gaal aterra na Cidade Condal em
1997 e nos três anos subsequentes o Barça ganha dois campeonatos (1998 e 1999),
mas falha o tri. O Real Madrid reemergia como principal potência em Espanha e
ganha duas Champions em três anos, factor que, aliado à perda de Figo para o
arqui-rival, à perda de competitividade e ao brutal incremento de dinheiro e
qualidade do Madrid, levou a que o desgaste sobre Van Gaal e Nuñez fosse tanto
que ambos se demitiriam no final da época 99/00. Uma nova Era viria.
O melhor futebol que o mundo já
viu

Após a saída de Nuñez e van Gaal,
sucedem-lhes Joan Gaspart na presidência e Serra Ferrer no banco catalão. O
primeiro fora um bem sucedido e competente vice-presidente de Nuñez, o segundo
tinha alcançado a fama e o êxito com boas performances ao serviço do Bétis de
Sevilla. Nenhum confirmou os créditos atribuídos. Ferrer foi despedido antes do
campeonato terminar, sucedendo-lhe Rexach e depois Van Gaal, num regresso
absolutamente desastroso para o holandês, que seria despedido nos últimos dias
de Janeiro de 2003, seis meses após o regresso, com a equipa num inaceitável
13º lugar. Gaspart terminaria os três anos da presidência com zero títulos
conquistados. O Barça parecia afundar-se e só a chegada de Laporta em 2003 é
que devolveu esperança e sucesso aos catalães, invertendo uma história que
parecia perdida. Com Laporta veio mais um holandês, Rijkaard, que devolveu a
filosofia ganhadora a equipa, agora assente em estrelas internacionais
contratadas (Ronaldinho, Eto’o, Deco, Giuly, Albertini, Márquez) e em jovens
promissores da cantera (Xavi, Iniesta, Valdés, Oleguer e, claro, Puyol). O
Barça conquistaria os campeonatos de 2005 e 2006 bem como a Liga dos Campeões
de 2006, encerrando assim um período de domínio nacional. A falta de
profissionalismo de alguns elementos, nomeadamente dos mais influentes à
cabeça, fez com que o Barça não ganhasse nenhum troféu entre Setembro de 2006 e
Agosto de 2008. Aí, numa tentativa de inverter o rumo dos acontecimentos,
Laporta toma uma aposta que seria a aposta de uma vida: Guardiola como
treinador da equipa principal. Em boa hora. O Barcelona presentou os adeptos de
futebol com uma das melhores interpretações do jogo, exibições que eram autênticos
recitais de bem jogar à bola, numa equipa em que mais de metade dos elementos
eram made in La Masia (Valdés, Piqué,
Puyol, Xavi, Iniesta, Busquets, Pedro e Messi, por exemplo). Sem surpresas, o
domínio foi de tal forma avassalador que o Barça conquistou em três anos outros
tantos campeonatos, uma Copa del Rey, três Supercopas, duas Champions, duas
Supertaças europeias e dois campeonatos do mundo de clubes. Em 2009 venceria
tudo, mas tudo o que havia para ganhar (seis competições). Mas todas as Eras
têm um fim e a de Guardiola chegou pela mão pesada do rival Real, agora apoiado
em José Mourinho. Vilanova sucedeu ao amigo e a questão impõe-se: conseguirá o
Barça continuar a encantar o mundo do futebol e a conquistar títulos
regularmente nos próximos anos? Deixem-nos jogar à bola, eles responderão.
O que dizem os Blaugrana?
À
semelhança do que se faz noutros países, nomeadamente em Inglaterra,
com o famoso Spyin' Kop dos adeptos do Liverpool, decidimos também
recolher opiniões entre os adeptos do FC Barcelona. Por falta delocais de discussão do clube catalão na net, foi bastante difícil encontrar alguém que respondesse às questões em tempo útil, mas conseguimos. Agradecemos a
disponibilidade do aficcionado Bhushan Shah.
1. Quais as vossas expectativas
para a temporada 2012/2013?
Ganhar La Liga (a maior
prioridade), a UEFA Champions League e a Copa del Rey também. Não
estamos no Mundial de Clubes nem na Supertaça Europeia este ano, e já perdemos
a Supercopa espanhola. Gostaríamos de ganhar
todos os troféus restantes.
2. Parece que o
FC Barcelona tem o campeonato na
mão devido aos oito pontos de vantagem sobre o rival directo, o Real Madrid. Esta análise
parece correcta?
Definitivamente não. É
uma boa vantagem, mas não podemos pensar que temos uma mão no troféu. Estamos com 8 pontos de vantagem. Não
seria surpreendente se o Real Madrid nos batesse duas vezes, reduzindo a
diferença em 6, e depois fosse para cima de nós através de outros jogos. Vamos
perder pontos. Temos de garantir
que não passamos para trás do Real Madrid, no entanto.
3. O que aconteceu no ano passado ao FC Barcelona, que foi eliminado por uma equipa como o Chelsea, que estava
perfeitamente ao seu alcance?
Se viram os dois jogos, podemos
dizer que muito se deveu a pura sorte. Claro
que o Chelsea tinha uma finalização clínica e defendeu bem ao estacionar o
autocarro. Mas
o Barça acertou na trave quatro vezes, e houve muitos falhanços. Era
muito improvável que o Barça perdesse com o desempenho que produziu. A sorte teve um papel muito importante.
4. O que explica o
crescimento progressivo do FC Barcelona desde o início do novo século?
Não estou em posição de responder
a esta questão, uma vez que sigo o Barça há apenas alguns anos. Mas um factor muito grande
foi definitivamente Guardiola. Ele revolucionou a forma como o
jogo do Barça. Além
disso, La Masia produz jogadores de qualidade, e cada vez mais estão a ser integrados
no plantel principal. Dependemos
muito pouco do mercado de transferências, ou, pelo menos, é o que esperamos.
5. Qual é o ponto
mais alto na história do FC
Barcelona? Porquê?
Uma vez mais, não estou posição
de comentar. Mas
se eu tivesse que escolher, o ponto alto seria a época em que vencemos os seis
títulos em disputa [2009].
6. Estão satisfeitos com o sorteio
para a Liga dos Campeões? Porquê?
Sim, o sorteio foi muito
favorável. É
um grupo fácil quando comparado com o “Grupo da Morte” (Real Madrid, Man City,
Ajax, Dortmund), ou mesmo a um com o Arsenal, Montpellier e Olympiakos. O
Barça provavelmente também passaria se tivesse um grupo mais difícil, mas a
verdade é que com jogos a meio da semana torna-se mais fácil um grupo como que
temos, pois não deverá afectar tanto o desempenho na Liga. Claro
que o Benfica é uma boa equipa, e vamos ter de jogar bem para vencer-vos. E eu também estou
cauteloso sobre a partida fora de casa com o Spartak.
7. O jogo contra o SL
Benfica situa-se entre a viagem a Sevilla e a recepção ao Real Madrid. Poderia
isto afectar a concentração de jogadores
do FC Barcelona no jogo contra o SL
Benfica?
Esta não é a primeira vez que uma
situação destas surge. Na última
temporada tivemos Chelsea-Real Madrid-Chelsea numa semana, naquela que foi uma
semana decisiva em relação à temporada. Perdemos tudo nessa semana. No
entanto, desta vez o Real Madrid está 8 pontos atrás de nós, e não o contrário,
como foi o caso no ano passado. Além
disso, a moral dentro do campo está definitivamente em alta devido ao começo
perfeito que tivemos. Por
isso, acho que o calendário não afectará os jogadores muito do ponto de vista
mental. Além
disso, temos um plantel com bastantes soluções disponíveis neste momento (excepto
centrais, lesionados), e os jogadores estão a regressar de lesões a tempo
(Iniesta, Adriano, Puyol), e podemos esperar alguma rotação.
8. O que sabem sobre o futebol Português, especialmente sobre o Benfica?
Não muito, excepto que o
campeonato Português é a sexta melhor liga europeia baseada nos coeficientes da
UEFA, e que o Benfica é uma das melhores equipas do campeonato, ao lado de
Porto.
9. O que pensam
sobre cada um dos portugueses que
estão em Madrid? Gostariam
de ver Mourinho como treinador do FC Barcelona? Gostariam de ver Ronaldo de azul e vermelho? O
que pensam de Coentrão,
Pepe e Carvalho?
O Real
Madrid tem uma série de jogadores portugueses de qualidade, como Pepe,
Coentrão, e, claro, “o Deus de si mesmo”. São
jogadores extremamente talentosos que podem causar problemas reais para o
Barça, como já aconteceu no passado. Eu
não gostaria de ver Mourinho como treinador do Barça uma vez que a sua
filosofia de jogo é completamente diferente e oposta da do Barça, algo que eu
particularmente gosto no meu clube. Além
disso, a sua gestão de recursos humanos é frágil, dada a forma como ele aliena
alguns jogadores (Kaká, Granero, Sahin). Eu não gostaria de o ver no Barça. Além disso, é um pouco excêntrico. E também não gostaria de CR7
vestido de “blaugrana”. Poderia
ocorrer um agravamento da qualidade de jogo de Ronaldo e Messi se jogassem
juntos.
10. Se pudessem contratar um jogador português ou que jogue no campeonato Português, quem escolheriam?
Não consigo pensar em ninguém
agora. Existe
por acaso algum central de qualidade por aí?
11. Quem consideram ser o melhor jogador do FC
Barcelona? E o pior (daqueles
que em princípio jogarão contra nós)?
Melhor: Messi. Ponto final. Pior:
Bem, apesar de eu querer que eles executassem bem, temo que Mascherano e Dani
Alves não terão exibições para recordar mais tarde.
12. Qual será o onze
titular com que Barcelona vai alinhar contra o
Benfica?
Víctor Valdés, Alves, Song,
Mascherano, Alba, Busquets, Xavi, Cesc, Tello, Messi, Villa.