Pinto da Costa voltou a elogiar Jorge Jesus, treinador do Benfica, dizendo que a actual classificação e pontuação do campeão nacional na Liga se deve principalmente ao seu treinador e que sem ele as coisas estariam bem piores. Em grande parte, é verdade. O Benfica vem de 9 vitórias em 10 jogos naquela que é a melhor série da época, um feito surpreendente tendo em conta a má planificação da temporada e os vários desequilíbrios no plantel. E Jesus está a conseguir resultados. Pinto da Costa sabe-o, e sabe também que sem as encomendas contra a Académica e Guimarães o Benfica estaria bem mais perto do primeiro lugar, mordendo os calcanhares ao actual líder (sem contar com as grandes arbitragens dos jogos do FCP, algo habitual no futebol português).
Pinto da Costa estará a cumprir os últimos anos de mandato. Perto dos 73 anos já não deverá dirigir os destinos do dragão por muito mais tempo. Seis anos, talvez. É uma possibilidade. E como tal estará disposto a fazer tudo para cumprir os seus últimos desejos. E qual será o maior desses desejos? Ter Jorge Jesus como treinador do FC Porto. Porquê? Vários motivos: primeiro e mais importante de todos, é o melhor treinador em Portugal e o segundo melhor português da actualidade; segundo, porque é um amigo pessoal de longa data do presidente portista; terceiro e igualmente importantíssimo, Pinto da Costa quer dar uma facada gigantesca no Benfica ao roubar-lhe o treinador que, por momentos, teletransportou equipa e adeptos de volta às épocas gloriosas. E este último ponto é talvez o mais importante de todos, já que pode significar que hoje, entre Benfica e Porto, as pessoas escolhem o Porto. Isto não nos pode acontecer.
O Porto vai bem lançado (e bem empurrado) para se sagrar campeão nacional. Então e se o Porto comandado por André Villas-Boas conseguir mesmo ganhar o título, como poderá Pinto da Costa assegurar os serviços de Jorge Jesus? Fácil, despede AVB. Não tem problema nenhum. O ciclo de vida de um treinador do Porto, mesmo sendo campeão, costuma ser curto. Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, José Mourinho e Co Adriaanse, são os melhores exemplos disso mesmo, todos foram campeões pelos dragões, a maioria bicampeões até, e todos acabaram por sair após terem ganho o campeonato. Despedir André Villas-Boas não seria problema.
E o Benfica? Até final desta época muita coisa ainda vai ocorrer. É objectivo do Porto desgastar cada vez mais a imagem de Jesus junto dos adeptos e direcção encarnada e para isso preparem-se para mais arbitragens encomendadas. Finda a época, logo se verá em que lugar e a quantos pontos do título ficará o Benfica. Se os resultados forem significativamente maus, Luís Filipe Vieira poderá mesmo, face à pressão dos sócios, despedir Jesus. Não, esperem, ele não precisa da pressão de ninguém, simplesmente despede treinadores num piscar de olhos, especialmente se tiver de salvar a sua imagem junto do eleitorado. "Mas Vieira e Jesus sempre foram e são grandes amigos!", há-de dizer, muito bem, alguém. Pois são, mas Vieira também era amicíssimo de Fernando Santos e de José Antonio Camacho e hoje parece que nem se falam. E eis-nos chegados à tal situação. Com Jesus no desemprego, Pinto da Costa despede o treinador campeão e contrata o seu "sonho de menino", provavelmente o último, e dá uma enorme machadada no Benfica e no benfiquismo. E todos sabemos as qualidades de Jesus, que implementado num sistema forte conseguirá aquilo que quer.
Para onde se volta Vieira? No mercado internacional há sempre muitos nomes disponíveis e com a ambição de treinar o Benfica. Desde os melhores, como Trapattoni, aos piores, como Quique ou Koeman, personagens que, uma pela falta de compreensão do futebol português e outra pela ambição única de se projectar a si mesmo e não ao clube, não singraram. Com o risco que é o mercado internacional, se calhar o melhor é mesmo apostar no mercado nacional. E em quem? Que treinador português é que ainda não passou pelo Benfica, tem a ambição e capacidade para treinar o nosso clube e pode de facto rivalizar com o Porto? Nem Humberto Coelho, nem Manuel José, nem Manuel Cajuda, nem Manuel Machado nem nenhum outro Manuel. Sobra um nome. Alguém novo, se calhar demasiado novo para merecer a confiança de um colosso europeu e que acabou de ser campeão pelo FC Porto: André Villas-Boas. Seria uma espécie de contra-machadada no Porto.
Isto tudo não acontece se algo for assegurado: a continuidade de Jesus no Benfica. É isso que Luís Filipe Vieira, Rui Costa e restantes elementos da direcção do clube têm de fazer a todo o custo, segurar o treinador. Porque se ele sair, imagino para onde irá e receio que o "novo ciclo" no futebol português fique irremediavelmente adiado por mais uns bons anos. Rebuscado? Sim. Possível? Também. Provável? A meu ver, bastante. Ou então é melhor ir dormir porque já estou a fazer filmes.
Ou não.
P.S. Não sei se estão recordados, mas há já uns tempos levantei o véu sobre este assunto na caixa de comentários
deste post. As possibilidades de AVB ser, hipoteticamente, treinador do Benfica num futuro próximo não me parecem assim tão fracas.