
Uma Assembleia Geral com 700 sócios nunca será representativa da realidade do Benfica. De um universo de mais de 250 mil associados, a presença de apenas 0,3% é o reflexo de um dos maiores e mais difíceis presentes envenenados que foi entregue aos benfiquistas pelo senhor Luís Filipe Vieira: a falta de militância. É um presente [para quem preside] porque, geralmente, a minoria que participa numa AG fá-lo com o intuito de passar todas as propostas da Direcção independentemente do seu conteúdo, mas envenenado porque fere de morte a credibilidade de qualquer acto deste género, uma vez que a amostra de sócios está longe de ser representativa. Ainda assim, e apesar de 700 sócios serem muito poucos quando comparados com a mole humana que se deslocava às AG's de há 15 anos, a melhoria é significativa quando comparada com as 100 e 200 pessoas que marcavam presença nas Assembleias de há um e dois anos. Curioso é que haja gente na internet (Gomes da Silva, serão só meia dúzia?) preocupada e obcecada com o facto de as 700 pessoas não transmitirem a vontade real dos sócios do SLB. Estavam essas mesmas pessoas preocupadas com as AG's que levavam 100 pessoas? Ou com os actos eleitorais a que não compareciam mais de 15 mil sócios? Nunca os ouvi falar de tal coisa.
Apesar de, ao contrário do que por aí circula, os sócios dos 50 votos terem constituído de longe, mas de muito longe, a maior fatia de votantes (e consequentemente de votos) que a falange favorável à validação do R&C teve, o "Não" venceu esmagadoramente fruto não só fruto dos 50 votos exibidos (uma percentagem muito reduzida face aos votos totais do "Não", especialmente quando comparados com os 50's do "Sim"), mas sobretudo graças aos 20's e aos 5's exibidos. Seria interessante que a direcção do Benfica divulgasse o número total de votos que cada grupo de sócios deu às opções referendadas na AG (lá está, transparência, parece que não convém a muito boa gente neste clube). Se assim fosse, não tenho a mais pequena dúvida que se provaria que pelo menos 80% dos votantes estiveram contra a aprovação do R&C.
E para além da direcção e da mesa da AG, deve haver mais gente a tirar ilações: a começar em três indivíduos considerados oposicionistas à actual direcção: Rui Rangel, Fernando Tavares e Bruno Carvalho. Os dois primeiros apareceram juntos com uma entourage de mais sete ou oito pessoas mas não pediram a palavra. O facto de terem estado presentes é positivo e é de realçar, mas não se devem ficar por aqui. Apesar de terem tanta obrigação de se candidatarem como qualquer outro sócio, neste momento, a questão que se coloca é outra. Nos dias que o nosso clube vive, é precisamente o Benfica quem chama por eles. O chumbo das contas verificado ontem não é fruto de uma leitura económica por parte dos sócios, mas sim uma cartão alaranjado à actual Direcção do Benfica. E, num momento em que o Benfica precisa de Rangel e Tavares mais do que nunca, eles os dois deveriam saber tirar a leitura correcta do que se passou na AG: as pessoas estão fartas de Vieira, estão fartas do Vieirismo e querem mudar para melhor. Neste momento, não tenho a mais pequena dúvida que uma candidatura em que figurassem na proa pessoas como Rangel e Tavares apoiadas por gente reconhecidamente de bem e que se demarcasse de certos apoios demagógicos, sairia vencedora das eleições de 26 de Outubro. Com eles poderia estar Bagão Félix, benfiquista de carácter inquestionável e capaz de dirigir com seriedade o clube, mas que faltou inexplicavelmente à chamada, como outros.
Quem também esteve presente foi Bruno Carvalho, presidente do Grupo da Luz, que certamente percebeu que há formas e maneiras de fazer oposição e que o que tem feito não é, nem de perto nem de longe, o correcto, estando a milhas do que deve ser o caminho a seguir. Foi fortemente vaiado quando se dirigiu ao púlpito e precisou de segurança privada para estar na Luz (infelizmente é esta a realidade). Aprecio a tenacidade com que vai à luta. O homem leva bofetadas de todos os lados, cai invariavelmente com a cabeça na lama e volta a pôr-se de pé para levar mais uma quantas. "Então por que motivo é que não gostas dele?" - perguntarão alguns benfiquistas. Pelo simples facto de além da tenacidade, não haver ali mais nada. Não há ideias, não há projecto, não há noção da realidade. Convenhamos: o Beto (aquele amigo do Koeman) também era muito lutador, mas na verdade era um cepo de primeira água, não era? Entregavam-lhe o meio-campo do Benfica? Não, pois não?
À chamada faltaram, entre outros, Varandas Fernandes e José Eduardo Moniz, recentemente vendidos a troco de pires de tremoços (quem consegue negar um belo pires de tremoço?), mas também Luís Tadeu e o supracitado Bagão Félix. Medo dos dois primeiros e desinteresse dos dois últimos? Parece o mais provável.
O que não se admite é que o suposto homem forte das finanças, Domingos Soares de Oliveira, se tenha escusado a ir à assembleia. Se a mesma é para sócios do Benfica independentemente de serem ou terem sido sócios do Sporting e/ou do Porto, DSO poderia lá ter estado. Não quis, compreende-se, provavelmente deverá querer resguardar-se para ir à AG de accionistas do Sporting, que se realiza amanhã. E o príncipe de cera, Rui Costa? Por que motivo faltou? Terá sido isto uma espécie de falta de comparência à chamada após o Levantamento das Caldas? Que sinal é que "o Rui" quer passar aos benfiquistas?
No momento em que Luís Filipe Vieira saiu da Assembleia Geral em passo apressado, fugindo às críticas no meio de seguranças (uma vez mais, lamentável a necessidade de estarem presentes, mas infelizmente é preciso) e não querendo ouvir os posteriores e habituais comentários e considerações dos adeptos, deixou de ser o presidente do Benfica. Ali, naquela figura, era um Marcello Caetano a abandonar o Quartel do Carmo dentro de um chaimite para euforia da população vencedora. Ali estava o derrube de um ditador conseguido pelo povo. Mas Vieira não vai para o Brasil. Qual gato de sete vidas, Vieira é um camaleão empresarial e nem esta saída de fininho pela porta pequena vai fazê-lo desviar-se um milímetro do rumo traçado. Talvez por falta de alguma lucidez, por incapacidade em compreender, a verdade é que Vieira acha-se em condições de ir para a luta.
Por isso, meus caros, e voltando ao início deste post, lanço-vos um repto: vamos ajudar Vieira. Vamos ajudá-lo a terminar o mandato com dignidade. E a única forma de terminá-lo condignamente, é pedindo uma demissão que está em falta há precisamente 20 horas. Já vai atrasado, mas ainda se pode redimir. Faça como Damásio: demita-se e não se recandidate. É o melhor que pode fazer pela sua saúde (aliás, brilhante recuperação, depois do Rally das Casas adoeceu, faltou a Coimbra mas esteve no Pavilhão da Luz, bravo!) e pelo clube que diz que ama.